A Meta chegou a considerar reduzir em até 60% o tamanho de algumas de suas equipes como parte de um plano para transformar a empresa em uma organização “nativa de inteligência artificial (IA)”. O projeto, batizado de Projeto OT, previa duas ondas de reestruturação em 2026, com demissões, fechamento de vagas e transferência de funcionários para áreas consideradas prioritárias pela companhia, segundo documentos internos analisados pela Reuters e relatos de mais de 20 pessoas familiarizadas com o planejamento.
O plano foi discutido em janeiro, durante o retiro anual de liderança da Meta no Havaí, onde o CEO Mark Zuckerberg e seus principais executivos avaliaram como a IA poderia alterar a estrutura da empresa dona do Facebook e do Instagram. Segundo um documento interno citado pela Reuters, a proposta previa que sistemas de IA assumissem parte significativa das tarefas realizadas atualmente por milhares de funcionários, enquanto equipes menores, com maior concentração de profissionais especializados, supervisionariam o trabalho.
Em exercícios de planejamento de cenários, executivos chegaram a estudar a possibilidade de reduzir em até 60% o tamanho de algumas equipes. Parte dos funcionários poderia ser transferida para novas unidades, enquanto outros seriam demitidos. De acordo com documentos internos, a primeira onda estava prevista para maio, seguida por uma segunda reestruturação em novembro. O plano também incluía o congelamento de vagas abertas e a dispensa de funcionários classificados como de baixo desempenho, segundo a Reuters.
A primeira etapa acabou ocorrendo em 20 de maio, quando a Meta demitiu 10% de seus funcionários. A segunda fase, no entanto, foi cancelada horas antes do primeiro corte, após Zuckerberg se reunir novamente com seus principais assessores, segundo um documento interno analisado pela Reuters. A empresa confirmou à agência que o Projeto OT existiu e que os cenários mais drásticos consideravam reduzir algumas equipes em até 60%, mas afirmou que isso não significava uma intenção de demitir 60% de toda a força de trabalho.

“Como parte da reestruturação da nossa empresa no início deste ano, pedimos a algumas equipes que realizassem um exercício de planejamento de cenários, analisando o impacto potencial de realocações, fechamento de vagas e cortes”, disse a Meta em comunicado à Reuters. Segundo a companhia, o processo resultou na transferência de milhares de funcionários para trabalhos considerados prioritários, mas “não implementamos todos os cenários do exercício, e nunca presumimos que o faríamos”.
A estratégia fazia parte de uma mudança mais ampla na forma como a Meta pretendia organizar suas equipes. Desde 2025, executivos da companhia vinham estudando empresas de IA e modelos de organização considerados “nativos de IA”. Em um documento interno do Projeto OT, a empresa previa uma estrutura em que “Ferramentas e agentes prontos para IA interagem, fluxos de trabalho são automatizados, novas construções priorizam a IA”. A ideia também incluía o desenvolvimento e a venda de agentes capazes de executar tarefas para outras empresas.
O modelo começou a ser testado em pequenos grupos. Segundo a Reuters, um projeto liderado pelo executivo Ime Archibong criou cinco núcleos com dois ou três engenheiros e um designer. Em vez dos ciclos tradicionais de desenvolvimento, que poderiam durar meses, os grupos trabalhariam em protótipos durante períodos de quatro semanas. Uma publicação interna posterior, chamada “Manual de IA Nativa”, propunha substituir funções tradicionais por um cargo mais amplo, o de “construtor”, além de reduzir níveis de gerência intermediária.
A transformação também provocou mudanças na gestão de pessoas. Uma unidade adotou o que chamou de “abordagem de aldeia”, na qual líderes de alto escalão ficariam responsáveis por avaliações e promoções de grupos de 30 a 50 funcionários, enquanto líderes de equipe conduziriam o trabalho cotidiano sem autoridade formal de gestão. A Meta disse à Reuters que suas equipes estavam testando maneiras de trabalhar de forma mais ágil e afirmou que decisões sobre avaliação de desempenho e promoções continuavam sendo tomadas por pessoas, e não por IA.
Funcionários reagiram e produtividade não acompanhou expectativa
A reação interna, porém, foi negativa. Depois de reportagens da Reuters sobre os planos de demissões, funcionários passaram a questionar se a transformação baseada em IA tinha como objetivo reduzir seus próprios postos de trabalho. O sentimento interno dos empregados, medido pela pesquisa semestral Pulse, caiu de 74% para 55%, segundo dados internos vistos pela agência. Também houve aumento dos esforços de sindicalização.

Ao mesmo tempo, dados internos indicavam que a adoção de IA não estava produzindo ganhos de produtividade na velocidade esperada. Segundo uma publicação de Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta, as alterações de código feitas em plataformas internas e na infraestrutura da empresa cresceram 220% em relação ao ano anterior, mas aquelas que efetivamente resultaram em recursos novos ou atualizados para os usuários aumentaram 36%. Publicações internas também apontaram alta de 40% em incidentes técnicos e de segurança e aumento de 70% no tempo gasto pelos funcionários para solucioná-los.
Diante da reação dos funcionários e das dúvidas sobre a capacidade dos agentes de IA de entregar os resultados previstos, Zuckerberg mudou o tom. Após o corte de 10% em maio, ele informou aos funcionários que não esperava novas demissões em massa naquele ano e afirmou querer oferecer mais estabilidade. Em julho, durante uma reunião interna, admitiu erros de cálculo sobre o ritmo da reorganização e disse que a tecnologia de agentes de IA não havia “acelerado” tão rapidamente quanto havia previsto. Segundo o CEO, os benefícios poderiam aparecer nos três a seis meses seguintes.
A Meta passou então a enfatizar uma estratégia mais centrada nos funcionários. Zuckerberg lançou uma campanha publicitária com a mensagem de que a empresa está “apostando nas pessoas” e, em uma publicação interna, afirmou: “Somos a única grande empresa focada em capacitar as pessoas e colocar o poder dessa nova tecnologia nas mãos de bilhões de pessoas em todos os nossos produtos, em vez de nos concentrarmos principalmente na automação do trabalho.” Apesar da mudança de discurso, os gastos da Meta com IA continuam elevados: a empresa planeja investir pelo menos US$ 130 bilhões em chips e infraestrutura de IA em 2026, segundo estimativas citadas pela Reuters.
A reportagem da Reuters publicada nesta quarta-feira, 26, foi baseada em dezenas de documentos internos, publicações e gravações, além de conversas com mais de 20 pessoas com conhecimento sobre o funcionamento da Meta. A agência afirma não ter conseguido determinar exatamente por que Zuckerberg abandonou a segunda fase do Projeto OT nem quais são os planos atuais da empresa para sua força de trabalho.
Em seu ensaio sobre o futuro da IA, o CEO afirmou que algumas empresas poderão ter menos funcionários, mas que isso não necessariamente significará menos empregos no conjunto da economia. “O tamanho das empresas pode diminuir, assim como aconteceu na transição de gigantes industriais para empresas de tecnologia”, escreveu. “Mas isso não significa menos empregos no geral. Implica em um número maior de empresas com menos funcionários cada uma”.