A inteligência artificial (IA) já assumiu parte significativa das tarefas desempenhadas por engenheiros de software na SAP, mas a maior empresa de software da Europa afirma que pretende usar a tecnologia para transformar funções, e não para substituir trabalhadores. A estratégia, apresentada pela companhia como uma forma de adaptar sua força de trabalho à nova realidade da IA, divide economistas e analistas, que apontam desafios ligados à infraestrutura tecnológica, à dependência de modelos desenvolvidos nos EUA e aos riscos para o mercado de trabalho.
Segundo reportagem do The New York Times, um dos exemplos dessa mudança é o engenheiro de software Fabrizio Primerano. Ele afirma que sistemas de IA passaram a executar atividades como pesquisa, testes e escrita de códigos, enquanto seu trabalho passou a ser concentrado na supervisão de agentes de IA e em tarefas consideradas mais criativas. "Isso está me dando mais liberdade para me dedicar a esse trabalho criativo", afirmou ao jornal.
A mudança faz parte da estratégia liderada pelo diretor-presidente da SAP, Christian Klein. Em entrevista ao The New York Times, o executivo disse que não espera operar com uma equipe menor nos próximos anos, mas com profissionais desempenhando funções bastante diferentes das atuais. "Não sei se daqui a dois ou três anos alguém ainda estará programando aqui", disse.
Apesar desse discurso, a empresa já promoveu uma ampla reestruturação. Segundo a SAP, cerca de 10 mil postos de trabalho foram eliminados há dois anos, parte deles relacionada ao avanço da IA, embora a companhia não tenha informado quantas demissões ocorreram diretamente por esse motivo. Ao mesmo tempo, a empresa afirma ter criado mais de 3,5 mil empregos líquidos desde 2023, incluindo novos cargos voltados ao desenvolvimento e à implementação de soluções baseadas em IA para clientes.

IA muda perfil dos profissionais e amplia debate sobre empregos
Economistas ouvidos pelo The New York Times avaliam que a estratégia pode representar uma alternativa para enfrentar a escassez de mão de obra qualificada na Europa, agravada pelo envelhecimento da população. Nicola Fuchs-Schündeln, presidente do Centro de Ciências Sociais WZB de Berlim, afirmou que a IA pode ajudar a compensar a redução da força de trabalho, desde que as empresas consigam adotar a tecnologia de forma ampla.
Já Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, pondera que isso dependerá de investimentos em infraestrutura digital e capacitação, áreas nas quais a Europa ainda estaria atrás dos EUA e da China.
Analistas também demonstram preocupação com a forte dependência da SAP em relação a modelos de IA desenvolvidos por empresas americanas. O tema ganhou destaque após medidas do governo dos EUA restringirem temporariamente o acesso de usuários estrangeiros a determinados modelos de IA da Anthropic, decisão posteriormente suspensa. Para especialistas, episódios desse tipo evidenciam riscos geopolíticos para empresas europeias que baseiam suas soluções em tecnologias externas.
Enquanto busca adaptar seus produtos, a SAP também amplia o uso da IA dentro da própria empresa. Segundo o The New York Times, funcionários utilizam agentes de IA para acelerar pedidos de patente, atender solicitações de suporte, desenvolver protótipos de software e criar novos recursos para sistemas existentes. A companhia também mantém centros de demonstração para apresentar aos clientes aplicações da tecnologia em áreas como manufatura, logística e produção industrial.
Ao mesmo tempo em que afirma apostar na requalificação de funcionários, a SAP também intensifica medidas para concentrar recursos em IA. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg, a empresa restringiu novas contratações, congelou viagens internas que não estejam ligadas ao desenvolvimento de IA e ampliou o controle sobre gastos com fornecedores.
Em comunicado interno, a companhia informou que as futuras admissões serão concentradas principalmente em cargos considerados estratégicos para IA.