Um dos últimos grandes obstáculos para profissionais criativos no Linux pode estar prestes a cair. Um desenvolvedor, conhecido como PhialsBasement, submeteu uma série de patches ao Wine que finalmente permitem a execução bem-sucedida do instalador do Adobe Creative Cloud em sistemas Linux. Isso abre caminho para a instalação direta de versões recentes do Photoshop, como as edições de 2021 e 2025, sem a necessidade de máquinas virtuais.
O problema histórico e a solução técnica
A barreira não era o Photoshop em si, versões antigas, como o CS6, já rodavam razoavelmente no Wine. O grande entrave era o instalador moderno da Adobe. Desde 2018, ele incorporou um componente que depende de uma versão embutida do Internet Explorer (IE) para processar JavaScript e XML durante a configuração. O Wine, ao emular o ambiente Windows, não suportava plenamente esse comportamento específico.
Os patches de PhialsBasement atacam o problema em duas frentes principais:
- Correções no MSHTML (o motor do IE no Wine): Ajustam a forma como o Wine delega identificadores dinâmicos (DISPIDs) ao JavaScript e como lida com os sistemas de eventos que o instalador da Adobe espera encontrar, essencialmente fazendo o Wine “falar a língua” do Internet Explorer 9+ que o instalador requer;
- Correções no MSXML3 (processador XML): O instalador da Adobe utiliza XML de uma forma “flexível” que o Windows tolera, mas que analisadores estritos no Linux, como o libxml2, rejeitam. A solução foi envolver esses trechos de dados XML em tags CDATA, um método que os marca como texto puro, contornando a validação rígida sem alterar a informação.
Funciona, mas com ressalvas
Em testes feitos pela comunidade e divulgados no Reddit, os resultados são promissores, porém variam conforme a versão:
- Adobe Photoshop 2021: Essa é a versão com mais comentários descrevendo que funciona bem. O principal problema reportado é com a função de arrastar e soltar, que pode estar relacionada ao uso do Wayland;
- Adobe Photoshop 2025: A instalação é bem-sucedida, mas a experiência de uso pode apresentar mais instabilidades. Relatos de testes da comunidade são mistos, indicando que há um caminho a percorrer até a perfeita estabilidade.
Ainda assim, o feito de permitir a instalação direta no Linux, sem precisar copiar arquivos de uma instalação prévia feita no Windows, é um salto significativo. Ele simplifica dramaticamente o processo e torna a experiência mais acessível.
O caminho para se tornar oficial
Inicialmente, os patches foram submetidos ao repositório do Wine da Valve (usado no Proton, do Steam). No entanto, os mantenedores fecharam o pull request orientando que o caminho correto é “upstream first”.
Isso significa que as mudanças precisam primeiro ser incorporadas ao repositório principal do WineHQ, o projeto mãe. Caso aconteça, é provável haver um maior engajamento por outros desenvolvedores para melhorar a compatibilidade, aproximando ainda mais da experiência oferecida no Windows.
Para muitos designers, fotógrafos e editores de vídeo, a suíte Adobe é uma ferramenta profissional indispensável. Sua ausência nativa no Linux sempre foi um dos argumentos mais sólidos contra a migração completa para o sistema do pinguim.
Embora alternativas livres (GIMP, Krita, Inkscape) e comerciais (o recente Affinity do Canva, que também roda via Wine) existam e sejam excelentes, a realidade do fluxo de trabalho e a compatibilidade de arquivos com clientes e colegas muitas vezes exigem o Photoshop e o Lightroom.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!