Durante décadas, a internet foi construída em torno da ideia de que pessoas acessam sites, assistem a vídeos, enviam mensagens, fazem pesquisas e consomem serviços online. Servidores existem para responder a essas ações. Essa relação ainda está no centro da web, mas a proporção entre o tráfego produzido por humanos e por máquinas está mudando rapidamente.
Segundo Thomas Seifert, diretor financeiro da Cloudflare, se a tendência atual continuar, o tráfego não humano poderá ser até mil vezes maior que o tráfego gerado diretamente por pessoas dentro de cinco anos. A própria empresa já havia previsto que máquinas ultrapassariam os humanos em volume de tráfego em 2027, mas precisou antecipar essa estimativa: segundo suas medições, a virada aconteceu em maio de 2026.
A ressalva de Seifert é importante. Ele próprio reconhece que errou previsões anteriores sobre a velocidade desse crescimento. Ainda assim, a ordem de grandeza da nova projeção chama atenção porque não significa que as pessoas deixarão de usar a internet. O que está acontecendo é que as máquinas passaram a fazer muito mais coisas por conta própria.
A internet está ganhando uma segunda população
Bots, crawlers, sistemas automatizados e APIs já fazem parte da web há bastante tempo. Mecanismos de busca precisam percorrer páginas constantemente, ferramentas de monitoramento verificam serviços e plataformas trocam enormes quantidades de dados sem que um usuário precise clicar em nada. A inteligência artificial acrescentou uma nova camada a esse processo.
Modelos de IA precisam consultar informações, acessar serviços, processar documentos, interagir com páginas e executar tarefas em nome de seus usuários. Agentes capazes de realizar ações de forma autônoma podem transformar uma solicitação humana em dezenas ou centenas de operações de rede.
É uma diferença importante. Uma pessoa pode pesquisar um produto, abrir algumas páginas e escolher o que deseja. Um agente automatizado pode fazer a pesquisa, comparar informações, consultar diferentes fontes, executar ações e voltar ao usuário com um resultado. Cada etapa representa atividade na infraestrutura da internet, mesmo que exista apenas uma pessoa por trás da solicitação original.
O crescimento desse tipo de operação ajuda a explicar por que o tráfego produzido por máquinas pode se afastar tão rapidamente do tráfego humano.
O problema não é apenas volume
Se a projeção estiver próxima da realidade, a consequência mais interessante não será simplesmente a necessidade de transportar mais dados. A infraestrutura também precisará lidar com uma internet na qual uma parcela cada vez maior das solicitações não vem de alguém sentado diante de uma tela. Isso muda a maneira como empresas precisam pensar em capacidade, segurança e custos.
A Cloudflare, que opera uma enorme infraestrutura de rede e segurança, naturalmente enxerga esse cenário também como uma oportunidade comercial. Se a quantidade de tráfego automatizado crescer em ritmo acelerado, empresas precisarão de mecanismos capazes de identificar comportamentos suspeitos, controlar bots e processar requisições com eficiência.
Existe ainda um problema particularmente delicado: nem todo tráfego automatizado é desejável.
Um crawler legítimo de um mecanismo de busca e um bot tentando copiar sistematicamente o conteúdo de um site podem parecer semelhantes do ponto de vista da infraestrutura. Da mesma forma, agentes de IA podem gerar solicitações legítimas em nome de usuários ou simplesmente aumentar a quantidade de acessos automatizados que um serviço precisa suportar.
Quanto maior a participação das máquinas, mais importante se torna distinguir quem está acessando um serviço, por qual motivo e com quais permissões.
Mais máquinas também significam mais eficiência
A outra parte da história está na infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento. Durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre, o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, argumentou que a empresa pretende extrair o máximo possível de cada dólar investido em servidores. A companhia diz preferir um modelo em que controla a eficiência da infraestrutura e vende o processamento realizado, em vez de simplesmente alugar capacidade computacional.
A discussão é especialmente relevante em um momento em que empresas de tecnologia estão gastando valores enormes para construir infraestrutura de inteligência artificial.
Para a Cloudflare, simplesmente comprar servidores e disponibilizar processamento como uma commodity não seria um negócio suficientemente atraente. A aposta está em fazer com que cada máquina trabalhe de maneira mais eficiente, utilizando melhor memória, armazenamento e capacidade computacional.
Isso explica também por que a empresa destaca seus investimentos relativamente modestos em infraestrutura quando comparados aos valores movimentados pelos grandes provedores de nuvem e pelos projetos de IA.
O humano continua sendo o motivo de tudo isso
Existe uma ironia na previsão de que os humanos poderão se tornar uma espécie de “margem de erro” no tráfego da internet.
Mesmo que as máquinas sejam responsáveis pela esmagadora maioria das requisições, quase todo esse ecossistema continua existindo por causa de necessidades humanas. Alguém quer encontrar uma informação, comprar alguma coisa, conversar com outra pessoa, produzir conteúdo ou automatizar uma tarefa. A diferença é que, cada vez mais, a pessoa não precisa executar pessoalmente todas essas etapas.
Essa mudança pode alterar a própria experiência de navegar pela web. Em vez de milhões de pessoas visitando páginas individualmente, poderemos ter milhões de agentes trabalhando simultaneamente em nome dessas pessoas. A interface deixa de ser necessariamente um navegador cheio de abas e passa a ser uma camada intermediária de software capaz de conversar com diferentes serviços.
Isso também levanta uma questão importante para a própria arquitetura da internet: quem será o principal consumidor da web no futuro, as pessoas ou os agentes que agem em nome delas?
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