Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS

Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS

Fala, pinguins! Bem-vindos a mais um Diolinux Responde, aquele momento em que pegamos as perguntas dos membros do canal e transformamos em reflexões um pouco mais profundas sobre o universo do Linux e da tecnologia. E no episódio de hoje, temos Linux sendo testado novamente por criadores gigantes, discussão sobre a indústria nacional de computadores e até aquela clássica comparação entre distribuições que sempre rende um bom debate.

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Linus Tech Tips tentando Linux (de novo)

Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS 2

O @rsilveira2181 trouxe uma pergunta que, sinceramente, muita gente deve ter visto pipocando por aí:

“Dio, você viu que o Linus Tech Tips tá tentando usar Linux de novo? Ele devia pedir tua ajuda!”

E olha… ajudar, ajudaríamos sem problema nenhum. Chegamos a assistir a alguns vídeos deles comentando sobre essa experiência recente com Linux, e depois de mais de 15 anos usando o sistema no dia a dia, dá pra dizer que tenmos algumas opiniões sobre praticamente tudo o que foi levantado ali.

Mas curiosamente, a parte mais interessante desse “desafio Linux” que o pessoal do Linus Tech Tips fez não é exatamente o que eles mostraram nos vídeos. Pelo menos não pra quem já usa Linux há bastante tempo.

Pra quem está chegando agora, claro, esse tipo de conteúdo tem um valor enorme. Mostra dificuldades reais, barreiras de entrada, coisas que ainda precisam melhorar, e isso é ótimo. Ajuda o ecossistema a evoluir.

Mas pra quem já está nesse universo há anos… o valor está em outro lugar. Só que essa é uma conversa mais longa, então deixamos para o final do artigo! Então fica por aqui, porque ainda tem muita coisa pra gente conversar antes.

“Notebook meme” e o futuro da indústria nacional

A próxima pergunta vem do @eoshaolinn, e ela toca num ponto que sempre gera discussão:

“Gosto muito da ideia de investirmos em empresas de montagem de computadores nacionais. Mas acredito que mais lançam ‘notebook meme’ do que outra coisa. Acredita que tem futuro?”

E essa aqui é interessante porque mistura idealismo com realidade. Futuro? Tem, e muito. Imagina um cenário em que o Brasil não só monta computadores, mas fabrica componentes críticos, como microchips. Esse é o tipo de ambição que vários países têm hoje, e com razão. Quem domina essa indústria, domina uma parte gigantesca da economia global.

E vamos ser sinceros: quem não gostaria de comprar um produto nacional, sabendo que ele foi desenvolvido com tecnologia de ponta, com identidade própria e competitividade internacional? Seria incrível. Mas… a realidade atual está bem distante disso.

O problema não é falta de vontade

Existe uma ideia recorrente de que “o Brasil não produz porque não quer”, ou porque falta capacidade técnica. Mas isso não é verdade, o problema é estrutural.

Hoje, o país não oferece um ambiente particularmente favorável para a criação de indústrias de tecnologia pesada. E quando falamos de tecnologia, especialmente hardware, estamos falando de investimentos gigantescos, planejamento de longo prazo e estabilidade.

Coisas que, convenhamos, não são exatamente o nosso ponto forte.

Na verdade, o que vimos nas últimas décadas foi justamente o oposto: várias empresas grandes, de diferentes setores, tecnologia, automotivo, vestuário, simplesmente encerrando operações no Brasil. Não porque “não gostam do país”, mas porque deixou de fazer sentido financeiro.

Se tem uma coisa que define o empreendedor brasileiro, é resiliência. Mas muitas vezes essa resiliência vem de um lugar meio torto: a necessidade de fazer as coisas apesar do ambiente, e não com o apoio dele.

Quem decide montar uma empresa de tecnologia por aqui precisa lidar com:

  • Carga tributária complexa;
  • Custos de produção elevados;
  • Burocracia;
  • Dificuldade de acesso a componentes;
  • Logística cara.

Ou seja, não é exatamente um cenário convidativo. E aí entra um ponto importante para entender o tal do “notebook meme”.

O papel do White Label

Muitas empresas nacionais optam por trabalhar com o modelo de White Label. Pra quem não está familiarizado, é basicamente o seguinte: a empresa compra um produto já fabricado, geralmente de um fornecedor internacional, e aplica sua marca, podendo ou não fazer ajustes no design, configuração ou acabamento.

E aqui vale deixar claro: White Label não é, por si só, algo negativo, muito pelo contrário. Existem empresas que fazem um trabalho excelente de curadoria, escolhendo bons modelos base, ajustando detalhes, criando diferenciais reais e entregando produtos de qualidade.

Mas… também existe o outro lado.

Como fabricar localmente é caro, e desenvolver um produto do zero é ainda mais caro, muitas empresas acabam recorrendo aos mesmos fornecedores, às mesmas bases de projeto, aos mesmos componentes. Com isso, temos produtos com pouca identidade.

E é aí que surge essa sensação de “notebook meme”, equipamentos que parecem genéricos, que não se destacam, que poderiam facilmente ter outra marca estampada sem que ninguém percebesse diferença. Isso não significa que são necessariamente ruins, mas significa que falta personalidade, inovação e, muitas vezes, posicionamento claro.

Dá pra mudar esse cenário?

Dá, mas não é simples. Possivelmente, a saída passa por algo maior do que decisões individuais de empresas. Passa por uma mudança na forma como o país encara sua economia. Incentivo à produção, simplificação tributária, abertura para investimentos, estímulo à inovação, tudo isso influencia diretamente na viabilidade de criar uma indústria tecnológica mais forte. 

E não precisa reinventar a roda, existem vários países que conseguiram dar esse salto, adotando políticas mais abertas, incentivando o empreendedorismo e criando ambientes mais favoráveis para negócios. Não é fácil, mas também não é impossível.

Pop!_OS pode alcançar o Ubuntu?

Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS 4

Agora vamos para a terceira pergunta, do @Srbonnie_64:

“Você acha que o Pop!_OS pode chegar no nível de relevância do Ubuntu no futuro? Levando em consideração que eles estão investindo pesado no COSMIC?”

Essa aqui… é capciosa. Porque envolve duas comunidades apaixonadas, duas propostas diferentes e uma boa dose de interpretação. E vamos começar sendo justos: tanto o Ubuntu quanto o Pop!_OS são projetos excelentes.

Para quem chegou agora no mundo Linux, talvez não seja tão óbvio, mas o impacto do Ubuntu ao longo dos anos foi gigantesco. Durante muito tempo, “Linux” e “Ubuntu” foram praticamente sinônimos para o público geral.

Empresas adotaram, desenvolvedores criaram soluções pensando nele, usuários iniciaram sua jornada por ali. Isso cria algo que não é fácil de replicar: um legado. Mesmo sendo uma distro com seus defeitos — como qualquer outra — o Ubuntu ainda é uma das mais lembradas e utilizadas no mundo.

Mas também é verdade que o Ubuntu de hoje não é o mesmo de anos atrás. Se antes ele era conhecido por tentar inovar, quebrar padrões e arriscar mais, hoje a postura é bem mais conservadora. E isso faz sentido. Quando você tem muito a perder, você pensa duas vezes antes de apostar alto.

A Canonical hoje precisa equilibrar inovação com estabilidade, especialmente considerando seu foco forte no mercado corporativo e servidores.

Enquanto isso, o Pop!_OS, desenvolvido pela System76, segue uma linha mais ousada. Especialmente com o desenvolvimento do COSMIC, que é um ambiente gráfico próprio, feito praticamente do zero. Isso dá liberdade, permite experimentar e permite tentar coisas que projetos maiores talvez evitariam. Mas também envolve risco.

Quem lembra do Unity?

Vale lembrar que esse caminho de tentar inovar na interface não é novo, o próprio Ubuntu já tentou algo parecido com o Unity. E, bem… não deu certo como esperado.

A ideia era interessante, tinha proposta, tinha identidade, mas não conseguiu se sustentar no longo prazo. Isso não significa que o COSMIC terá o mesmo destino, mas serve como um lembrete de que inovar no desktop Linux não é exatamente uma tarefa simples.

A distância ainda é grande

Hoje, em termos de relevância global, a distância entre Pop!_OS e Ubuntu ainda é significativa. Mas isso não quer dizer que essa distância seja permanente, a história do Linux mostra justamente o contrário.

O próprio Ubuntu já foi menor e menos relevante do que o Debian, que é sua base. Com o tempo, ele ganhou espaço, visibilidade e acabou se tornando uma referência por si só.

Hoje, a relevância entre os dois é, no mínimo, compartilhada, mesmo que alguns usuários mais apaixonados discordem disso com certa intensidade.

Se o Ubuntu conseguiu crescer a partir do Debian, não é absurdo imaginar que uma distribuição baseada nele possa, eventualmente, trilhar um caminho semelhante. Especialmente agora, com o crescimento do Linux no desktop impulsionado por fatores como jogos, compatibilidade e iniciativas como o Proton.

Distribuições como Linux Mint, Zorin OS e o próprio Pop!_OS aparecem com frequência como alternativas mais amigáveis para iniciantes. Mas ainda assim, existe um longo caminho até alcançar o nível de reconhecimento do Ubuntu e mais ainda até chegar próximo do impacto histórico que ele construiu.

Quando o Linux deixa de empolgar

Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS 3

O João trouxe uma pergunta que muita gente que já usa Linux há um tempo já sentiu, mesmo que nunca tenha colocado em palavras:

“Comecei em 2022 e sinto que aquela empolgação de estudar e pesquisar esfriou. Como manter o interesse?”

E eu vou começar sendo bem honesto contigo, João: isso é mais normal do que você imagina, na verdade, é quase inevitável.

Quando começamos a usar Linux, tudo é novidade. Cada comando novo, cada configuração, cada erro que aparece na tela vira uma oportunidade de aprendizado. Existe uma recompensa constante em explorar, descobrir e entender como as coisas funcionam, só que esse estado não dura pra sempre.

Com o tempo, aquilo que antes era novidade vira rotina. Aquilo que antes exigia esforço vira automático. E aí acontece essa sensação estranha de “acho que perdi o interesse”. Mas o ponto importante aqui é: você não perdeu o interesse, você mudou de fase. O Linux deixou de ser um hobby exploratório e virou uma ferramenta.

O próprio Linus Torvalds já comentou algo nessa linha: quando o sistema está funcionando bem, ele praticamente desaparece. Ele deixa de ser o foco e passa a ser o meio para você fazer outras coisas. E quando você chega nesse ponto, estudar o sistema por estudar já não tem o mesmo apelo.

O que muitas vezes a gente interpreta como “desinteresse” é, na prática, falta de desafio. Seu cérebro já entendeu como aquilo funciona. Já criou atalhos. Já automatizou processos. E como não existe mais atrito, não existe mais aquela sensação de descoberta.

Isso é exatamente o que acontece com qualquer habilidade. Aprender a dirigir, tocar um instrumento, programar… tudo passa por esse mesmo ciclo. E aí existem basicamente dois caminhos:

  • O primeiro é aceitar que aquilo virou parte do seu repertório e seguir usando naturalmente;
  • O segundo, e talvez o mais interessante, é subir o nível do jogo.

Se antes o desafio era aprender Linux, agora talvez o desafio seja usar Linux para fazer coisas mais complexas. Em vez de ficar preso no “qual distro usar” ou “como personalizar o sistema”, você começa a explorar coisas como automação, scripts, desenvolvimento, infraestrutura.

Explorar algo como o NixOS, por exemplo, pode virar completamente sua cabeça sobre como um sistema operacional pode ser estruturado. Ou até testar algo como o Bazzite, que já vem com uma proposta muito mais focada em experiência pronta, especialmente para jogos.

São abordagens diferentes, que tiram você da zona de conforto.

Outro caminho que costuma prender bastante gente é o self-hosting. Quando você começa a rodar seus próprios serviços, subir aplicações, controlar sua própria infraestrutura, o Linux deixa de ser só o sistema do seu desktop; ele vira a base de um ecossistema inteiro.

Ensinar também é evoluir

Tem um ponto que muita gente subestima: ajudar outras pessoas. Quando você começa a responder dúvidas, participar de comunidades, explicar conceitos… você revisita coisas que já sabia, mas sob outra perspectiva.

E isso aprofunda o conhecimento de uma forma que só estudar não consegue. Além disso, tem um lado humano nisso tudo: o Linux sempre foi muito sobre comunidade, troca, colaboração. Querendo ou não, fazer parte disso também mantém o interesse vivo.

Agora, talvez o ponto mais importante de todos. Você não precisa transformar tudo em aprendizado constante; se Linux já é natural para você, ótimo, use isso a seu favor. Em vez de estudar Linux, use Linux para estudar outras coisas, criar projetos, aprender novas habilidades ou explorar hobbies.

Qual distro está conquistando em 2026?

Linux no LTT, “notebooks meme” e o futuro do Pop!_OS 1

A pergunta do Matheus entra naquele território clássico: “qual distro você está usando agora?”

E a resposta mais honesta é: não tem uma única. Teve a brincadeira com o EndeavourOS, que quem está mais próximo da comunidade sabe que foi piada interna, mas o que mudou foi mais o workflow do que uma “paixão nova”.

O KDE Plasma, por exemplo, vem ganhando bastante espaço no meu uso. A experiência está muito redonda, muito confortável no dia a dia. E junto com isso, o Fedora tem aparecido mais também, especialmente em versões com KDE e projetos como o Bazzite.

Não necessariamente como “a distro definitiva”, mas como algo que está encaixando bem no momento. Enquanto isso, continuo de olho no Pop!_OS e no desenvolvimento do COSMIC, esperando ele amadurecer mais para valer um teste mais sério.

Voltando ao LTT

Agora sim, voltando ao ponto inicial. O mais interessante do pessoal do Linus Tech Tips testando Linux não é ver eles quebrando sistema ou encontrando bug. Isso é legal, é entretenimento, é até útil, mas não é o ponto principal.

O ponto principal é entender por que isso está acontecendo agora.

O Linux hoje é muito mais viável no desktop do que era anos atrás, e isso tem muito a ver com o trabalho da Valve, especialmente com o Steam Deck e o Proton. Isso abriu portas para um público completamente novo, criou uma comunidade de jogadores que, mesmo sem Steam Deck, começaram a usar Linux.

Quando o Linux passa da marca de 5% no Steam, isso pode parecer pouco, mas na prática, estamos falando de milhões de usuários e isso muda a forma como o mercado enxerga a plataforma. Deixa de ser um nicho pouco relevante e passa a ser algo que vale a pena considerar.

Ao mesmo tempo, o Windows 11 não vive um momento de unanimidade, muita gente não está feliz — está apenas acostumada. E quando aparece uma alternativa viável, a curiosidade naturalmente surge.

E aí entra o LTT. Quando um canal desse tamanho começa a falar mais sobre Linux, isso gera um efeito em cadeia. Mais gente se interessa, testa e comenta o assunto. Isso acaba pressionando o mercado de forma indireta.

Mesmo com bugs, mesmo com problemas, mesmo com momentos caóticos, a experiência deles alcança muita gente e, muitas vezes, ajuda a melhorar o próprio ecossistema.

Um ponto interessante foi a decisão do Linus de não pedir ajuda. A ideia de simular a experiência de um usuário comum faz sentido, mas também escancara uma expectativa que muita gente tem: a de que Linux deveria ser intuitivo em todos os aspectos. Mas assim como qualquer mudança de paradigma, não é.

Trocar de sistema operacional é como mudar de esporte. Tem semelhanças, mas as regras são outras.

A grande verdade é que facilidade tem muito mais a ver com hábito do que com sistema. Você passou anos usando Windows, resolvendo problemas, aprendendo como ele funciona. É natural que ele pareça fácil. Se você fizer o mesmo com Linux por tempo suficiente, ele também vai parecer natural.

Agora sim, fechamos o Diolinux Responde.

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