A inteligência artificial foi vendida como a próxima fronteira da produtividade e do crescimento exponencial. No entanto, um relatório recente da consultoria Deloitte, “State of AI in the Enterprise”, pinta um cenário mais complexo e realista: para a maioria das empresas, a IA ainda não se traduziu em lucro. Apesar do hype, apenas 20% das organizações reportaram crescimento de receita como resultado de suas iniciativas com IA, mesmo que 74% delas tenham esse objetivo.
Os dados se somam a um estudo similar da PwC, onde apenas 12% dos CEOs viram tanto redução de custos quanto aumento de receita com seus investimentos em IA. A constatação é e que o retorno financeiro direto e imediato da IA tem sido elusivo para a grande maioria.
Uma busca por vantagem estratégica
A Deloitte oferece uma explicação que vai além do balanço financeiro. Segundo o relatório, o sucesso com IA não se mede apenas em eficiência ou receita, mas na conquista de uma “diferenciação estratégica e uma vantagem competitiva duradoura”. Em outras palavras, as empresas podem estar investindo não para lucrar amanhã, mas para não desaparecerem depois de amanhã.
Há sinais de que essa transformação está em curso. O número de líderes que consideram a IA “transformadora” para suas organizações mais que dobrou em um ano, saltando de 12% para 25%. Além disso, 66% afirmam que a tecnologia já melhora a produtividade e eficiência. A pergunta que fica é: por que esse ganho de produtividade não se reflete no faturamento? A dissonância sugere que os benefícios ainda estão sendo digeridos ou que os ganhos em uma área são compensados por custos em outra, como a complexidade de implementação e governança.
Adoção ampla, subutilização e o fantasma da automação
O acesso à IA está se democratizando dentro das empresas: quase 60% dos trabalhadores agora têm acesso a ferramentas de IA aprovadas pela equipe de TI, um aumento significativo em relação aos 40% de um ano atrás. No entanto, entre esses, menos de 60% as utilizam diariamente. A IA corporativa, portanto, sofre de subutilização.
Paralelamente, a expectativa de automação de postos de trabalho é alta. Mais de um terço das empresas (36%) espera automatizar totalmente pelo menos 10% de seus empregos em um ano. Em três anos, essa expectativa salta para 82% das empresas. O dado preocupante é que 84% das organizações não redesenharam suas funções com base nas capacidades da IA, indicando uma preparação deficiente para essa transição.
Esse cenário gera ceticismo entre os funcionários. Apenas 13% dos trabalhadores não técnicos são altamente entusiasmados com a IA. Enquanto a maioria (55%) está aberta à tecnologia, uma parcela significativa (25%) prefere evitá-la ou ativamente desconfia dela. Convencer os colaboradores de que a IA é uma ferramenta de capacitação, e não apenas de substituição, está sendo desafiador.
O relatório aponta para os agentes de IA, modelos com acesso a ferramentas para executar tarefas complexas, como a próxima fronteira. Embora apenas 23% das empresas os utilizem hoje, a expectativa é que esse número salte para 74% em dois anos.
Especialistas do setor, como Ali Sarrafi, CEO da Kovant, argumentam que o problema atual é tratar a IA como uma mera automação de fluxo de trabalho sofisticada, cansando os usuários e gerando poucos resultados transformadores. O verdadeiro salto, segundo ele, vem de tratar os agentes como colegas de trabalho autônomos, atribuindo-lhes funções específicas e contínuas.
Ele cita um exemplo prático: uma grande fabricante que implantou uma equipe de agentes para monitorar os níveis de estoque entre 7.000 fornecedores. Os agentes automatizam 95% do trabalho de reabastecimento, desde o envio de e-mails de consulta até o acompanhamento do pedido, liberando os planejadores humanos para tarefas de análise e aprovação. Esse tipo de implementação, integrada a ferramentas familiares, é onde a IA começa a gerar valor e economia de tempo.
Sarrafi também aponta que a má experiência do usuário das ferramentas corporativas é uma barreira crítica. “A maioria das ferramentas de IA corporativa está um ou dois anos atrás das de consumo em termos de experiência do usuário”, afirma. A chave para a adoção está na simplicidade e na integração invisível ao fluxo de trabalho existente.
Um investimento de longo prazo
O relatório da Deloitte desmonta a narrativa de um retorno financeiro rápido e universal da IA, mas não a invalida. Ele revela uma fase de implementação, experimentação e ajuste. Empresas estão investindo pesado em uma capacidade que consideram estratégica, mesmo sem ver o retorno imediato no caixa.
Os desafios são evidentes: traduzir ganhos de produtividade em receita, gerenciar a transição no mercado de trabalho com mais planejamento, vencer a resistência cultural interna e, principalmente, evoluir das ferramentas pontuais para sistemas de agentes autônomos bem desenhados e integrados.
A lição é que a jornada da IA corporativa é menos uma corrida por lucro imediato e mais uma reengenharia de como as empresas operam e competem. O verdadeiro balanço de ganhos e perdas só será feito daqui a alguns anos, quando os alicerces que estão sendo colocados agora finalmente sustentarem novos modelos de negócio.Contribua para o Diolinux seguir independente e crescente: seja membro Diolinux Play e tenha acesso a benefícios exclusivos!