O PC baratinho ainda existe, mas está sob pressão no Brasil

O PC baratinho ainda existe, mas está sob pressão no Brasil

Durante anos, o chamado “PC baratinho” se tornou quase uma instituição entre entusiastas de tecnologia no Brasil. A ideia é montar o computador mais barato possível que ainda consiga rodar jogos atuais com dignidade. Mas, olhando para o cenário recente, essa fórmula pode estar começando a dar sinais de desgaste.

Um levantamento feito pelo Adrenaline trouxe uma constatação curiosa: corrigido pela inflação, o PC baratinho praticamente não ficou mais caro ao longo da última década. Em 2016, uma configuração de entrada custava cerca de R$ 1.600. Ajustando pelo IPCA, isso equivale a algo próximo de R$ 3.000 hoje, exatamente a faixa em que essas máquinas continuaram orbitando por anos.

À primeira vista, isso parece uma boa notícia. Afinal, mesmo com toda a evolução tecnológica, ainda seria possível montar um PC acessível com desempenho atual. Mas o cenário atual começa a mostrar que essa estabilidade pode ter sido mais exceção do que regra.

O equilíbrio que vinha sendo mantido

Ao longo dos anos, o segredo do PC baratinho sempre foi o equilíbrio. Peças antigas eram substituídas por equivalentes mais modernas e eficientes, mantendo o custo total relativamente estável. Um antigo Pentium com uma GTX 750 Ti deu lugar, com o tempo, a configurações com processadores mais robustos e placas de vídeo intermediárias mais atuais.

Hoje, uma configuração típica já envolve um processador como um Intel Core i5 de entrada e uma GPU como a Radeon RX 6600, uma placa que se mantém relevante há mais tempo do que o esperado. Isso não necessariamente por mérito exclusivo dela, mas pela falta de alternativas melhores no mesmo segmento de preço. E aqui começa um dos problemas.

Falta de inovação no segmento de entrada

O mercado de placas de vídeo parece ter perdido o interesse no segmento mais básico. Tanto AMD quanto Nvidia vêm priorizando produtos mais caros, deixando um vazio difícil de preencher para quem busca custo-benefício.

A RX 6600 acabou se tornando uma espécie de “zona de conforto”. Ela ainda entrega desempenho suficiente para jogos modernos, mas já deveria ter sido substituída por algo mais novo e eficiente. O problema é que simplesmente não existe uma substituta clara que mantenha o mesmo equilíbrio de preço e desempenho.

Tentativas como a RTX 3050 não conseguiram competir diretamente, enquanto outras opções mais recentes chegaram com preços altos demais para o público de entrada. O resultado é um mercado estagnado, em que evoluir significa pagar bem mais caro.

O verdadeiro vilão

Se placas de vídeo estão paradas, outros componentes resolveram se movimentar para pior. Memórias RAM e SSDs tiveram aumentos expressivos de preço recentemente, chegando em alguns casos a dobrar de valor.

Esse movimento tem impacto direto no custo final do PC. Mesmo que processadores tenham se mantido estáveis ou até mais baratos, o aumento nesses componentes essenciais acaba puxando todo o conjunto para cima.

O resultado já começa a aparecer nos números: o PC baratinho, que estava na casa dos R$ 3.000, agora se aproxima dos R$ 4.000. E isso já considerando valores ajustados pela inflação, o que indica um aumento real de custo.

Outro fator que complica ainda mais o cenário é a transição para memórias DDR5. Durante um breve período, parecia que essa nova geração finalmente estava atingindo um ponto interessante de custo-benefício.

Mas essa janela se fechou rapidamente. Com a recente alta de preços, montar um sistema com DDR5 voltou a ser caro demais para a proposta de entrada. Em muitos casos, kits de memória chegam a custar o equivalente a uma placa de vídeo básica.

Isso força uma espécie de “retrocesso tecnológico”, onde plataformas mais antigas com DDR4 voltam a fazer mais sentido economicamente, mesmo oferecendo menor desempenho e com o aumento de preço pela redução de sua fabricação.

O mercado de usados pode salvar?

Diante desse cenário, o mercado de usados poderia ser uma alternativa? Na teoria, sim. Em mercados mais maduros, como o dos Estados Unidos, a compra de componentes usados é comum e relativamente confiável. Mas no Brasil, a realidade é bem diferente.

Existe uma percepção distorcida de valor, onde peças antigas muitas vezes são vendidas por preços próximos ou até superiores aos de modelos novos com desempenho muito melhor. Isso torna o mercado de usados pouco atrativo e, em muitos casos, até frustrante.

Ainda assim, há espaço para evolução. Um modelo mais estruturado, com empresas oferecendo peças usadas revisadas e com algum tipo de garantia, poderia mudar esse cenário. Mas, por enquanto, isso ainda é exceção.

Se antes o desafio na hora de economizar era escolher bem as peças, agora ele passa a ser, cada vez mais, encontrar um ponto de equilíbrio que simplesmente pode não existir mais com tanta facilidade.

Ainda é possível montar um bom PC gastando relativamente pouco? Sim. Mas a margem está menor, as escolhas mais limitadas e o futuro, um pouco mais caro do que gostaríamos.

Este conteúdo é um corte do Diocast. Assista ao episódio completo, em que conversamos com Diego Kerber do Adrenaline sobre mudanças no comportamento do mercado e novas formas de consumir tecnologia, como o crescimento dos consoles portáteis, incluindo o Steam Deck e o ROG Ally, além de decisões de hardware que começam a gerar resultados diferentes na prática.