Em 2017, o OnePlus 5T era um dos smartphones mais interessantes que alguém poderia comprar. Hardware potente, tela de boa qualidade e uma experiência Android que conquistou muitos usuários. Quase uma década depois, porém, o cenário é completamente diferente: o aparelho deixou de receber atualizações oficiais há anos e, para boa parte dos usuários, já estaria destinado à gaveta ou ao lixo eletrônico.
Só que hardware não envelhece necessariamente na mesma velocidade que o software. Um processador que já não impressiona em 2026 continua sendo perfeitamente capaz de executar tarefas básicas, e uma câmera que ficou para trás ainda pode fotografar. O problema é que, quando o fabricante abandona o aparelho, manter tudo funcionando passa a depender de comunidades e projetos independentes.
Foi justamente por isso que o OnePlus 5T se tornou um candidato interessante para nosso experimento: em vez de instalar outra versão do Android, por que não colocar nele o Ubuntu Touch?

A ideia é antiga. Em 2013, a Canonical apresentou uma proposta bastante ambiciosa para levar o Ubuntu aos smartphones, com uma interface adaptada para telas sensíveis ao toque e a promessa de aproximar a experiência móvel da experiência de desktop. O projeto acabou abandonado pela Canonical alguns anos depois, mas a história não terminou ali.
O Ubuntu Touch sobrevive até hoje graças ao trabalho da UBports, que assumiu o desenvolvimento e mantém o sistema compatível com uma série de aparelhos. O OnePlus 5T, conhecido pelo codinome “dumpling”, está entre eles. E é aí que um smartphone oficialmente abandonado começa a ganhar uma segunda vida.
O primeiro desafio é fazer o computador enxergar o celular
Antes de instalar qualquer sistema alternativo, existe uma etapa inevitável: descobrir se o aparelho permite que isso seja feito.
O OnePlus 5T já tem uma vantagem importante nesse sentido. Além de possuir suporte a projetos de ROMs personalizadas, como o LineageOS, seu bootloader pode ser desbloqueado sem que o processo se transforme em uma batalha contra o fabricante.
Para instalar o Ubuntu Touch, o processo recomendado pela UBports também é relativamente amigável. O projeto disponibiliza o UBports Installer, uma ferramenta para computador que automatiza boa parte da instalação.
No Linux, existem diferentes formas de instalar o programa, incluindo pacotes tradicionais e AppImage. A última opção é particularmente conveniente para quem quer simplesmente baixar o aplicativo, conceder permissão de execução e começar.
Existe, porém, uma exigência importante para o OnePlus 5T: antes de instalar o Ubuntu Touch, o aparelho precisa estar em uma versão específica do OxygenOS. No caso desse modelo, a documentação indica o OxygenOS 10.0.1 como ponto de partida.
Com o aparelho restaurado e atualizado, chega a hora de ativar as opções de desenvolvedor e a depuração USB.
E foi justamente aí que o experimento quase parou.
O computador simplesmente não reconhecia o smartphone. Nada de armazenamento, nada de ADB e nenhuma reação aparente do instalador. Depois de investigar o problema e considerar que poderia haver alguma complicação com o Linux, a solução acabou sendo muito menos interessante: trocar o cabo USB.
O cabo funcionava para outras tarefas, mas aparentemente não estava servindo para aquela comunicação. Com outro cabo, o UBports Installer reconheceu o OnePlus 5T imediatamente.
É uma daquelas situações em que uma instalação aparentemente complexa acaba sendo derrotada pelo componente mais banal possível.
Desbloquear o bootloader foi mais simples do que parecia
Com o aparelho reconhecido, o instalador começou a orientar o processo. A primeira barreira real apareceu quando ele identificou que o bootloader estava bloqueado. Isso não chegou a ser um problema grave. O próprio processo apresenta a opção para desbloqueá-lo, e o usuário precisa apenas confirmar a operação utilizando os botões físicos do aparelho.

O primeiro processo, porém, não terminou como esperado. O instalador ficou parado na etapa de desbloqueio, o smartphone reiniciou e, por um momento, parecia que o aparelho havia voltado completamente ao ponto de partida.
Na realidade, parte importante do trabalho já estava feita. O bootloader havia sido desbloqueado.
Depois de ativar novamente a depuração USB, a segunda tentativa avançou de maneira diferente. O OnePlus 5T entrou no recovery do UBports e, algum tempo depois, surgiu na tela o robô do projeto indicando que a instalação estava acontecendo.

Mais alguns minutos, outro reinício e finalmente apareceu a tela de inicialização do Ubuntu Touch. O OnePlus 5T estava vivo novamente.
Um smartphone sem conta Google

A primeira impressão do Ubuntu Touch é curiosa para quem passou anos utilizando Android ou iOS. O processo de configuração é familiar, mas existe uma diferença importante: não há necessidade de criar ou conectar uma conta Google ou Apple para começar a utilizar o aparelho. A configuração pode ser feita com um usuário local.

Isso parece um detalhe pequeno, mas muda bastante a proposta do dispositivo. O Ubuntu Touch não parte da ideia de que um smartphone precisa estar permanentemente conectado aos serviços de uma grande plataforma para funcionar.
Depois da configuração inicial, chegou a hora de verificar se o hardware do OnePlus 5T continuava funcionando.
Volume, brilho, lanterna, Wi-Fi, leitor de digitais, câmera e sensores básicos apresentaram funcionamento adequado. O Bluetooth também funcionou normalmente, permitindo conectar acessórios sem grandes dificuldades.

A compatibilidade de hardware é, aliás, um dos pontos mais interessantes do projeto. Um smartphone lançado em 2017 consegue continuar sendo útil porque existe uma comunidade disposta a manter o suporte necessário para ele.
O GPS é uma exceção curiosa. A localização pode demorar mais do que estamos acostumados em um Android convencional porque o Ubuntu Touch não conta com o mesmo sistema de localização assistida encontrado normalmente nos smartphones atuais. Em determinadas situações, isso significa depender diretamente dos sinais dos satélites, o que pode aumentar bastante o tempo necessário para obter uma posição.
Não é exatamente um defeito específico do OnePlus 5T, mas uma consequência das diferenças entre as plataformas.

O Ubuntu Touch não tenta ser um Android diferente
Depois de alguns minutos explorando a interface, fica evidente que o Ubuntu Touch não pretende simplesmente reproduzir a experiência do Android.

A navegação é baseada em gestos e aproveita bastante as bordas da tela. A partir de uma região lateral é possível acessar os aplicativos, enquanto outros gestos permitem abrir a central de configurações rápidas ou alternar entre os programas em execução.

A interface transmite uma sensação familiar, mas suficientemente diferente para lembrar que estamos utilizando outra plataforma. E existe uma diferença ainda maior quando chegamos aos aplicativos.

O Ubuntu Touch possui sua própria loja, a Open Store, com aplicativos desenvolvidos especificamente para o sistema. Há uma quantidade razoável de utilitários, ferramentas e pequenos programas, mas basta observar os aplicativos mais populares para encontrar uma limitação importante.

Os grandes nomes do mercado mobile praticamente não estão presentes como aplicativos nativos. O YouTube, por exemplo, pode ser utilizado através de um WebApp. Isso acontece porque o ecossistema do Ubuntu Touch nunca alcançou uma escala comparável à do Android ou do iOS.

O sistema utiliza seu próprio formato de aplicativos, chamado .click, e embora seja perfeitamente possível desenvolver programas para ele, faltou ao projeto uma base de usuários grande o suficiente para atrair a mesma quantidade de desenvolvedores que as plataformas dominantes.
Esse é provavelmente o maior obstáculo para transformar o Ubuntu Touch em um smartphone principal. O hardware pode estar funcionando. O sistema pode ser estável. A interface pode ser interessante. Mas um smartphone moderno depende também dos serviços e aplicativos que as pessoas usam todos os dias.
E se os aplicativos nativos não forem suficientes?
Aqui aparece uma das características mais interessantes do Ubuntu Touch: ele não precisa ficar limitado ao seu próprio ecossistema. Com o Waydroid, é possível executar aplicativos Android dentro do Ubuntu Touch. Isso amplia bastante as possibilidades do sistema e reduz uma das maiores limitações da plataforma.

Também existe o Libertine, que permite executar determinados aplicativos tradicionais do Linux para desktop em um ambiente apropriado para o sistema. Em determinadas situações, isso transforma o smartphone em algo muito mais próximo de um computador Linux convencional.

Também é possível utilizar aplicativos Snap compatíveis com a arquitetura ARM. É nesse ponto que o Ubuntu Touch começa a revelar uma identidade bastante diferente da de um Android alternativo. Ele não é apenas uma tentativa de reproduzir o modelo de smartphones que já conhecemos. A proposta é levar o ecossistema Linux para um dispositivo móvel e explorar o que isso permite fazer.
Naturalmente, isso não significa que qualquer aplicativo de desktop vá funcionar magicamente em uma tela pequena. Há limitações de interface, desempenho, arquitetura e compatibilidade. Ainda assim, a possibilidade é interessante porque mostra que o sistema está construído sobre uma ideia diferente.
O que esse experimento realmente prova?
O mais interessante nessa experiência não é simplesmente conseguir instalar o Ubuntu Touch em um OnePlus 5T. É perceber que o aparelho, depois de anos sem suporte oficial, ainda possui um hardware perfeitamente funcional.
O que estava transformando aquele smartphone em lixo eletrônico não era necessariamente o desgaste físico dos componentes. Era a ausência de software atualizado e de uma plataforma mantida pelo fabricante. A comunidade conseguiu preencher esse espaço.
Isso não transforma automaticamente um OnePlus 5T em um substituto perfeito para um smartphone moderno. A ausência de aplicativos nativos, algumas limitações de hardware e diferenças na experiência de uso fazem com que o Ubuntu Touch continue sendo uma alternativa de nicho. Mas “nicho” não significa inútil.
Para quem valoriza privacidade, gosta de Linux, quer reaproveitar hardware antigo ou simplesmente tem curiosidade sobre sistemas operacionais móveis alternativos, o projeto oferece uma experiência que poucas plataformas conseguem proporcionar.
Existe ainda uma dimensão quase histórica nessa experiência. Usar o Ubuntu Touch em um aparelho de 2017 é como visitar uma realidade alternativa em que a Canonical não abandonou sua ambição de transformar o Ubuntu em uma plataforma também relevante no mercado mobile.
Só que essa realidade nunca aconteceu. O Android consolidou sua posição, o iOS permaneceu como principal alternativa e a Canonical abandonou o projeto antes que ele pudesse alcançar escala suficiente para disputar espaço com os dois.
A comunidade, entretanto, continuou o trabalho. E talvez essa seja uma das maiores virtudes do ecossistema Linux: projetos podem perder o apoio de empresas, deixar de ser prioridade comercial e ainda assim encontrar pessoas dispostas a mantê-los vivos.
Ajude-nos a seguir crescendo de forma independente e ainda receba benefícios exclusivos: seja membro Diolinux Play.