Apple quer aval do governo dos EUA para comprar RAM de fabricante chinesa

Apple quer aval do governo dos EUA para comprar RAM de fabricante chinesa

Os efeitos da crise de componentes de memória vão reverberar por mais alguns meses (ou até anos) na indústria de tecnologia. Embora a Apple também tenha sido afetada e esteja repassando os custos [1, 2, 3] para os consumidores, ela ainda busca soluções para o problema.

Segundo fontes ouvidas pelo Financial Times, a companhia está tentando obter permissão do governo dos Estados Unidos para comprar chips de memória da fornecedora chinesa CXMT.

O empecilho é que a CXMT consta na lista restritiva de empresas militares chinesas — Lista 1260H [PDF], a qual inclui companhias que, segundo o Pentágono, têm ligações com o Exército de Libertação Popular e que representam uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

A Apple teria entrado em contato com o Departamento de Comércio dos EUA, bem como com a administração Trump e outras autoridades em Washington, na tentativa de obter a aprovação. Vale notar que a presença da CXMT na referida lista não impede a Maçã de comprar chips da empresa — ainda assim, isso poderia causar certas consequências para ela.

Isso porque o Departamento de Defesa não pode firmar acordos com empresas que constam na lista, nem utilizar produtos e serviços de terceiros que usem seus componentes. Isso significaria que a Apple perderia vendas para esse setor do governo americano.

Para o presidente republicano do Comitê da China na Câmara dos Representantes, John Moolenaar, seria um “erro grave” a Apple fechar um acordo com a fornecedora — já que isso ajudaria a China a “dominar cadeias de suprimentos críticas”, tornando a indústria de tecnologia americana ainda mais dependente da potência asiática.

Pode piorar…

Esse não é o único problema que a Apple enfrenta, já que, em 2025, o Departamento de Comércio indicou que a CXMT era uma das várias empresas chinesas que pretendia incluir na Lista de Entidades (Entity List).

Na época, a Casa Branca orientou o Departamento de Comércio a adiar a inclusão da empresa nessa lista, já que essa inclusão teria bloqueado completamente todo o comércio com ela. Agora, levando em conta as circunstâncias atuais, a companhia está pressionando a Casa Branca para que a CXMT seja mantida fora da lista, conforme apontado pelo analista .

Em uma publicação no X, ele disse que a diferença entre oferta e demanda de memória continuará aumentando até 2027.

  1. Da capacidade de memória alocada para eletrônicos de consumo em 2026, estima-se que 15% a 20% migrem para data centers em 2027, e essa porcentagem poderá aumentar.
  2. Devido à oferta restrita de memória (LPDDR), o volume atual de chips “A20” que a Apple pretende adquirir no segundo semestre de 2026 e no primeiro trimestre de 2027 poderá ficar entre 10% e 20% abaixo da meta original (embora parte disso possa refletir uma supervalorização da própria Apple).

Entretanto, Kuo aponta que, mesmo que o lobby da Apple seja bem-sucedido e ela compre memória da CXMT, isso “não reduziria significativamente os custos nem preencheria a lacuna de oferta”. Ainda assim, com o mercado em desequilíbrio, a Apple “tem todos os motivos para garantir uma fonte adicional”.

Tim Cook é um dos poucos líderes de tecnologia que ainda consegue transitar entre Washington e Pequim, então é melhor lidar com essa situação antes que ele deixe o cargo de CEO. Mesmo que o esforço não dê em nada, a cobertura da mídia ainda pode deixar o mercado com a impressão de que a Apple tentou, mas foi limitada pela política dos EUA. Isso pode ajudar a aliviar a frustração com os aumentos de preços e os prazos de entrega mais longos.

Como apontado pelo analista, o obstáculo principal da Apple é manter o governo dos EUA ao seu lado. No atual clima político, isso será muito difícil — mesmo com os anos de trabalho de relacionamento construídos por Tim Cook.