Brasil está no coração de uma anomalia do campo magnético da Terra

Brasil está no coração de uma anomalia do campo magnético da Terra

Existe uma região do planeta onde o campo magnético da Terra apresenta menor intensidade em comparação a outras áreas. Localizada sobre parte da América do Sul e do Oceano Atlântico Sul, a Anomalia Magnética do Atlântico Sul desperta o interesse dos cientistas por seus impactos na exploração espacial e por atingir diretamente o território brasileiro.

Para detalhar o que existe por trás desse fenômeno, o Olhar Espacial da última sexta-feira (7) recebeu Gelvam André Hartmann, docente do Departamento de Geologia e Recursos Naturais do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Graduado em Física, com mestrado e doutorado em Geofísica pela Universidade de São Paulo (USP), ele realizou estágio de doutorado no Institut de Physique du Globe de Paris e pós-doutorados na USP e no Observatório Nacional. Ele coordena projetos financiados por instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em colaboração com cientistas do Brasil e do exterior.

Gelvam André Hartmann
Gelvam André Hartmann (à direita) foi o convidado da última sexta-feira (7) do Programa Olhar Espacial, com Marcelo Zurita (à esquerda). – Crédito: Olhar Digital/YouTube

Anomalia magnética sobre o Brasil “não é um defeito”, diz especialista

No programa, o especialista começou desmistificando a própria palavra “anomalia”, que na geofísica “não significa um defeito, mas sim qualquer fenômeno que destoa de uma média”. Para exemplificar, ele comparou o efeito à busca por uma jazida de minério de ferro cercada por areia, onde a jazida representa a variação do padrão (que é a areia ao redor).

Para explicar a origem do fenômeno, Hartmann detalhou como funcionaria a Terra se o seu campo fosse um “ímã em barra” perfeito alinhado ao eixo de rotação terrestre. Em um cenário teórico ideal (campo dipolar), a intensidade magnética seria máxima nas regiões polares e cairia pela metade nas áreas equatoriais, com declinação nula.

O geofísico lembrou que a bússola mede a declinação – a diferença entre o azimute magnético e o azimute geográfico – e que essa complexidade do campo real foi o que permitiu que os grandes navegadores históricos descobrissem os continentes. Caso o campo fosse perfeitamente simétrico, a bússola apontaria estritamente para o norte geográfico e a navegação teria sido completamente diferente.

Anomalia Magnética do Atlântico Sul
Anomalia Magnética do Atlântico Sul – Crédito: Agência Espacial Europeia (ESA)

É justamente essa complexidade geométrica do planeta que gera os números observados sobre o território nacional. “Se a gente tivesse esse campo perfeitamente bipolar, para as latitudes do Brasil, que seriam do Equador até mais ou menos 25, 28 graus sul, os valores teriam que ser em torno de 38, 40 mil nanoteslas. Mas, aqui em Campinas, por exemplo, ele é de 22 mil. Então, por conta do efeito da anomalia, é quase metade do que seria esperado para essa região”, destacou Hartmann, citando a unidade utilizada para medir a intensidade do campo terrestre.

O pesquisador ressaltou que esse enfraquecimento ocorre porque o planeta possui importantes contribuições de campos não dipolares – estruturas magnéticas mais complexas do que um simples ímã de dois polos. “São contribuições de quadrupolo, de octupolo, de 16 polos, de 32 polos, enfim, é um campo muito mais complexo do que a gente imagina. A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é caracterizada por ter contribuições de campos não dipolares bastante elevadas”, explicou.

Hartmann também fez questão de tranquilizar a população sobre possíveis riscos na superfície ou na aviação. De acordo com o especialista, o enfraquecimento do escudo magnético nessa faixa não traz consequências para o dia a dia das pessoas nem para os voos comerciais. “Não tem nenhum tipo de preocupação; a gente não precisa criar nenhum tipo de alarme quanto a isso. É para ficar muito tranquilo sobre esse aspecto”.

Crescimento da Anomalia do Atlântico Sul (AAS). – Crédito: Reprodução/Agência Espacial Europeia

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Anomalia força Hubble a desligar componentes

Por outro lado, os impactos são reais quando se observa o espaço e as órbitas baixas da Terra, onde a proteção magnética natural é reduzida e há uma presença mais intensa de partículas solares carregadas. O geofísico citou como exemplo o Telescópio Espacial Hubble, que precisa tomar precauções operacionais ao passar pela região.

“Quando o Hubble atravessa a região da anomalia, alguns componentes são desligados para preservar os equipamentos dos efeitos que ela pode produzir. Eventualmente, algum computador pode ser afetado ou algum componente pode ser perturbado”, disse Hartmann, ponderando que a engenharia espacial tem avançado para dotar os novos satélites de blindagens cada vez mais eficientes contra essas perturbações.

O pesquisador também mostrou como a ciência estuda a história magnética do planeta por meio da análise de rochas, minerais e sedimentos, registros que permitem reconstruir eventos de milhões de anos atrás. Por fim, Hartmann abordou a evolução futura da anomalia e esclareceu a relação desse fenômeno com uma eventual inversão dos polos magnéticos terrestres, processo natural que já ocorreu diversas vezes ao longo da história da Terra. Para assistir ao programa na íntegra, clique aqui.

Como assistir ao Programa Olhar Espacial

Apresentado por Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon e coordenador nacional do Asteroid Day Brasil, o programa é transmitido ao vivo, todas às sextas-feiras, às 21h (horário de Brasília), pelos canais oficiais do veículo no YouTube, Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), LinkedIn e TikTok

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