Uma inundação repentina atingiu vilas próximas à fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, nesta quarta-feira (26), conforme noticiado pelo Olhar Digital. A força da água destruiu casas, arrastou veículos e derrubou uma ponte sobre o rio Bhote Koshi.
De acordo com a agência de notícias Reuters, as autoridades mobilizaram policiais, militares e helicópteros para as operações de busca e resgate. Mais de 350 corpos já foram retirados das áreas atingidas, mas a destruição de estradas e pontes, somada ao acúmulo de lama e detritos, dificulta o trabalho, e cerca de mil pessoas seguem desaparecidas.

O distrito montanhoso de Rasuwa está entre as regiões mais afetadas. Segundo testemunhas, a água destruiu assentamentos inteiros em questão de minutos. Imagens exibidas pela televisão e na internet mostram casas danificadas, carros levados pela correnteza e uma ponte metálica sendo arrastada pelo rio.
Além dos moradores locais, centenas de turistas e peregrinos estrangeiros continuam sendo procurados pelas equipes de salvamento que atuam de forma incansável na região afetada.
Colapso de geleira gerou onda sísmica e fluxo de detritos
Os primeiros relatos de autoridades nepalesas e do Serviço Geológico Americano indicaram a possibilidade de um terremoto de magnitude 4.4 ter provocado o colapso do gelo. No entanto, os órgãos de monitoramento retificaram a informação. O registro sísmico não foi um terremoto tradicional, mas sim a vibração provocada pelo próprio impacto do desprendimento da geleira contra o solo.
Em participação no programa Olhar Digital News, Waldemir Lima dos Santos, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), explicou que o deslocamento do gelo gerou uma dissipação de onda sísmica e desencadeou um movimento violento de detritos. “Foi mesmo em razão de um deslocamento de geleiras, o que, nessa região do Himalaia, hoje está sendo bastante comum”. Essa grande massa de lama, pedras e água desceu velozmente pelas vertentes das montanhas, engolindo tudo ao seu redor.
A ocorrência desses fenômenos extremos relaciona-se diretamente com o aquecimento acelerado das montanhas e com fatores climáticos globais. O aumento progressivo da temperatura global derrete as estruturas congeladas da região, formando acumuladores de água sobre o gelo. Esse volume infiltra-se na estrutura do relevo, desestabilizando o terreno e provocando o deslizamento gradual das encostas, processo que costuma ser fortemente intensificado pela atuação do fenômeno climático El Niño.
Segundo Santos, a influência do El Niño altera o padrão normal dos ventos conhecidos como monções e reduz o volume de chuvas do verão. Esse cenário favorece o acúmulo perigoso de reservatórios hídricos no topo da superfície congelada. “Já sabemos que a região do Nepal e a região do Himalaia, em geral, estão aquecendo rapidamente. A região abriga milhares de geleiras que estão derretendo e se desestabilizando”.

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Ocupação de risco no Nepal repete padrão de desastres no Brasil
O professor destacou que a dinâmica observada no território asiático apresenta semelhanças com catástrofes registradas frequentemente no Brasil, especialmente nas regiões serranas do Sudeste. A combinação natural entre um relevo inclinado e a presença de assentamentos humanos em locais desfavoráveis cria um cenário perfeito para graves perdas materiais e humanas. Quando as enchentes descem com força total, as moradias situadas em fundos de vale recebem todo o impacto do fluxo acumulado.
Ele ressaltou que a presença de populações em moradias vulneráveis é o fator chave para transformar um evento da natureza em uma grande tragédia social. “A própria configuração do relevo dá suporte para que isso aconteça: temos um relevo bastante acidentado, uma combinação de declividade muito forte e a presença das pessoas, que é a configuração necessária para que haja desastre. Só há desastre onde há população”.
A vulnerabilidade das famílias do Nepal é consideravelmente agravada pelas difíceis condições socioeconômicas enfrentadas pelo país. Sendo um dos países menos desenvolvidos de todo o continente asiático, grande parte de seus moradores sobrevive da agricultura informal ou vive abaixo da linha da pobreza. Essa grave limitação financeira obriga milhares de cidadãos a habitar encostas íngremes e áreas inóspitas, ampliando brutalmente os riscos durante a ocorrência de enchentes repentinas nas montanhas.
Diante do risco iminente de novos episódios de deslizamento e enchentes nas próximas horas, autoridades locais orientaram moradores próximos ao rio Bhote Koshi a abandonar suas casas imediatamente e procurar áreas mais elevadas. Especialistas defendem a criação urgente de sistemas de monitoramento e alerta para salvar vidas, além de políticas públicas de habitação que permitam a realocação definitiva e segura dessas populações para longe dos canais de escoamento.

Experiência brasileira aponta caminhos para redução de riscos
Santos lembra que o Brasil já adotou iniciativas preventivas semelhantes e bem-sucedidas em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais após episódios de forte destruição ambiental.
Para o especialista, a criação de alertas e a mudança de endereço das comunidades mais expostas são passos indispensáveis. “Infelizmente, é preciso retirar as pessoas das áreas com maior probabilidade de serem atingidas e levá-las para as áreas mais altas”.
Ele reconhece, porém, que executar essa remoção esbarra na extrema vulnerabilidade socioeconômica e na informalidade em que vive a população nepalesa. “Isso é muito difícil, porque a gente está falando de um país em que as condições de moradia não são muito boas. Uma população que vive, em sua grande maioria, na informalidade.”
Essa tragédia reforça que o monitoramento de geleiras e a implantação de redes de alerta precoce são urgências operacionais na região do Himalaia. Enquanto governos locais e órgãos internacionais contabilizam os danos socioeconômicos e buscam os desaparecidos, o evento consolida a necessidade de integrar dados geológicos a planos urbanos eficazes para impedir que o avanço da ocupação sobre leitos fluviais continue multiplicando o saldo de vítimas.
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