O atual fenômeno El Niño tem grandes chances de se tornar o mais intenso já registrado, segundo projeções de modelos climáticos analisadas por pesquisadores.
Caso as previsões se confirmem, o evento poderá provocar temperaturas recordes nos oceanos, ampliar extremos climáticos em diversas regiões do planeta e aumentar o risco de uma crise humanitária, especialmente em países mais vulneráveis.
Uma análise de Zeke Hausfather, pesquisador da organização Berkeley Earth e autor do Sétimo Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), aponta que os modelos climáticos atribuem cerca de 90% de probabilidade de o El Niño de 2026-2027 se tornar o mais forte desde o início dos registros confiáveis.
Segundo o estudo, as temperaturas na região tropical do Oceano Pacífico podem atingir aproximadamente 3,6 °C acima da média, superando com ampla margem o recorde anterior. Apesar disso, cientistas destacam que ainda é cedo para afirmar com precisão quais serão os impactos do fenômeno.
Modelos indicam fortalecimento acelerado
- O El Niño, oficialmente declarado em 11 de junho, é a fase quente de um ciclo climático natural que ocorre ao longo de vários anos;
- O fenômeno é conhecido por elevar a temperatura média global e favorecer eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor;
- De acordo com projeções da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o evento deverá evoluir rapidamente para uma condição considerada forte entre julho e setembro;
- Já o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima uma probabilidade superior a 80% de que o fenômeno alcance a categoria de muito forte até o fim do ano, colocando este El Niño entre os maiores já observados.
“Essas previsões são impressionantes”
Para Emily Black, professora de Processos Terrestres e Clima da Universidade de Reading e pesquisadora sênior do National Centre for Atmospheric Science, do Reino Unido, as projeções merecem atenção. “Essas previsões são impressionantes”, disse ao Live Science.
Ela ressalta que as previsões de El Niño sempre envolvem incertezas, mas afirma que o elevado grau de concordância entre os modelos e o aquecimento já observado no Pacífico tropical indicam que o cenário deve ser levado muito a sério.
“As previsões de El Niño sempre vêm com incerteza, mas o nível de concordância entre os modelos nesta época do ano, combinado com o aquecimento já observado no Pacífico tropical, significa que isso deve ser levado muito a sério.”
Segundo Black, um El Niño muito intenso aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de eventos climáticos destrutivos.
“O ponto importante é que um El Niño muito forte mudaria substancialmente as probabilidades de eventos climáticos prejudiciais em muitas partes do mundo, particularmente no Sul Global, com impactos severos sobre os meios de subsistência.”
O Comitê Internacional de Resgate (International Rescue Committee) também manifestou preocupação com o fortalecimento do fenômeno. Segundo a organização, as condições previstas podem desencadear enchentes severas e secas em regiões da África Oriental e da Ásia, atingindo algumas das comunidades mais vulneráveis.
Aquecimento global amplia os efeitos
Durante o El Niño, águas mais quentes se concentram na porção leste do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e deslocando a corrente de jato para o sul.
Nos Estados Unidos, isso costuma provocar condições mais quentes e secas no Nordeste do país, enquanto aumenta o risco de enchentes na Costa do Golfo e no Sudeste.
Em escala global, o aquecimento adicional dos oceanos injeta mais calor na atmosfera, somando-se ao aumento de temperatura provocado pelas mudanças climáticas causadas pela atividade humana.
Black destaca que o contexto atual torna o fenômeno ainda mais preocupante. “O El Niño é um fenômeno climático natural, mas agora está acontecendo em um planeta muito mais quente. Isso importa porque um El Niño forte libera calor e energia em um mundo que já está aquecido.”
Ela ressalta, entretanto, que os impactos não podem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño ou apenas às mudanças climáticas.
“Os dois interagem. O El Niño pode aumentar as chances de seca em algumas regiões, enchentes em outras, ondas de calor marinhas, interrupções nas monções e temperaturas globais excepcionalmente elevadas. As mudanças climáticas tornam muitos extremos de calor mais severos e podem intensificar chuvas fortes porque uma atmosfera mais quente consegue reter mais umidade.”

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El Niño pode superar recorde de 2015-2016
Segundo Hausfather, a atualização dos modelos climáticos realizada em julho reforçou ainda mais as projeções. A análise reúne 667 simulações provenientes de 14 modelos sazonais diferentes.
De acordo com o pesquisador, os resultados indicam não apenas que o fenômeno provavelmente será o mais intenso já registrado, mas que poderá superar o recorde anterior por uma margem considerada extraordinária.
“Com as simulações de julho de 667 membros de conjunto em 14 diferentes modelos sazonais, parece que o El Niño deste ano não apenas tem grande probabilidade de ser o evento mais forte desde o início dos registros confiáveis — ele pode acabar sendo o mais forte por uma margem realmente impressionante.”
A NOAA considera que há condições de El Niño quando a temperatura da região leste do Pacífico tropical permanece pelo menos 0,5 °C acima da média histórica, acompanhada de alterações nos ventos, na pressão atmosférica e nas chuvas.
O fenômeno é classificado como fraco, moderado, forte ou muito forte. Eventos com temperatura superior a 2 °C acima da média costumam receber informalmente o nome de “super El Niño”, embora essa não seja uma classificação científica oficial. Os modelos de julho indicam que a anomalia pode ultrapassar 3,5 °C até o fim do ano.
Segundo Hausfather, a mediana das projeções aponta um pico de aproximadamente 3,6 °C, cerca de 0,8 °C acima do recorde estabelecido durante o El Niño de 2015-2016, quando a anomalia atingiu 2,75 °C. Ainda conforme o pesquisador, cerca de 91% das simulações indicam que o evento atual superará o recorde de 2015-2016.
Especialista pede cautela
Apesar das projeções, Black afirma que os modelos continuam sendo estimativas e não garantias. “É certamente plausível que este se torne um El Niño recordista, e as previsões mais recentes tornam essa possibilidade real, e não remota. No entanto, eu ainda teria cautela em tratar qualquer estimativa de probabilidade como uma certeza.”
Ela aponta dois motivos para essa prudência. “Primeiro, este evento ainda não atingiu seu pico, e os eventos de El Niño normalmente alcançam sua intensidade máxima mais para o fim do ano. Segundo, ‘o mais forte já registrado’ depende do índice, do conjunto de dados e da referência utilizada.”
Fenômenos El Niño anteriores deixaram rastro de destruição
Os episódios mais intensos de El Niño produziram impactos significativos em diferentes partes do planeta.
O evento de 2015-2016, por exemplo, esteve associado a uma temporada recorde de furacões no Pacífico Norte Central, além de secas severas no Caribe e na Etiópia e temperaturas globais excepcionalmente elevadas.
Caso as projeções atuais se confirmem, o fenômeno poderá igualar ou superar tanto esse episódio quanto o famoso super El Niño de 1877-1878, ocorrido antes do início dos registros modernos. Esse evento histórico provavelmente contribuiu para uma seca extrema que alimentou a grande fome global de 1876 a 1878, desastre que resultou na morte de mais de 50 milhões de pessoas.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a tragédia também foi agravada por políticas agrícolas coloniais da época, mostrando que crises humanitárias surgem da combinação entre fatores ambientais e socioeconômicos.
Risco para a segurança alimentar
Embora o mundo tenha mudado profundamente desde o século XIX, especialistas afirmam que um super El Niño ainda pode provocar fortes impactos sobre os sistemas alimentares globais.
A preocupação é maior em um contexto em que pesquisadores alertam que a insegurança alimentar já não está restrita aos países de baixa renda e que as mudanças climáticas vêm pressionando a agricultura em diversas regiões.
O ciclo climático conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENSO) alterna fases de El Niño e La Niña em intervalos de aproximadamente dois a sete anos, com duração típica entre nove e doze meses.
Segundo previsões da Carbon Brief, 2026 deverá ser o segundo ano mais quente já registrado, enquanto o fortalecimento do El Niño aumenta a probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente da história.
“Os impactos são o que importam”
Black destaca que a intensidade recorde do fenômeno é menos importante do que seus efeitos sobre a população. “Os recordes chamam atenção, mas os impactos são o que realmente importam.”
Ela conclui que, mesmo que o fenômeno não estabeleça um novo recorde absoluto, suas consequências ainda poderão ser graves.
“Mesmo que fique um pouco abaixo do recorde, um El Niño muito forte ainda pode ter consequências sérias. Finalmente, essas previsões são preocupantes, mas também são úteis: elas dão às sociedades tempo para antecipar possíveis impactos e agir antes que os piores efeitos sejam sentidos.”
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