Essa é a newsletter de Cinema e Streaming do Olhar Digital, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital.
Tem semanas que um filme parece engolir as conversas na internet. E esta é uma delas. Não tem como não falarmos sobre A Odisseia, projeto mais recente de Christopher Nolan que estreou na quinta-feira (16). Mas, cá nesta newsletter, você vai encontrar curiosidades e reflexões sobre tecnologia, memória, trauma. E desafios de adaptar um poema escrito há quase três mil anos.
Nesta edição, mostramos como Nolan levou A Odisseia aos cinemas, reunimos as principais impressões da crítica internacional sobre o longa e ainda destacamos as principais estreias do cinema e dos streamings.
Vamos lá?
A odisseia tecnológica para produzir A Odisseia
Já virou parte da, digamos, marca do Christopher Nolan “criar tecnologias” para produzir seus filmes. Em Oppenheimer, por exemplo, a equipe do cineasta pediu para a Kodak “inventar” um filme monocromático para rodar nas câmeras usadas na produção do longa-metragem, que fez jus ao nome. O rolo de filme da versão “original e analógica” em IMAX 70mm, usado para projetar o longa nos poucos cinemas com estrutura para isso, tinha 17,7 quilômetros de extensão. Na hora de levar A Odisseia para as telonas, não foi diferente.
Desta vez, Nolan quis filmar tudo com câmeras IMAX. Tipo, tudo mesmo. Sim, esse formato existe há algum tempo. Mas é a primeira vez que um longa-metragem é inteiramente gravado com essas câmeras. Oppenheimer foi quase. Nolan usou câmeras IMAX 70mm para capturar paisagens e cenas-chave, como explosões e momentos com bastante impacto visual. E câmeras Panavision System de 65mm para filmar cenas de diálogo.

Essa medida em milímetros refere-se à largura física da fita de película usada dentro da câmera para registrar a imagem. Quanto maior esse número, maior é a área do “negativo” para capturar luz e detalhes, o que resulta numa imagem com resolução, nitidez e profundidade superiores às do cinema convencional (que historicamente usa rolos de 35mm).
Bom, A Odisseia atinge o marco que Nolan queria. Tudo foi gravado com câmeras IMAX 70mm. E isso trouxe seus desafios operacionais, logísticos e financeiros (estima-se que aproximadamente US$ 3 milhões foram gastos só em rolos de filme neste projeto). Além de operar esses trambolhos, um grande desafio (o maior, talvez) é o barulho. É que o rolo de filme precisa correr numa velocidade muito alta (quase dois metros por segundo) dentro delas para gerar a imagem de altíssima qualidade (já já falo sobre isso). Na hora de gravar cenas com sequências de ação ou paisagens, isso não costuma ser um problema. Na hora de gravar cenas quietas e íntimas – muitas vezes em cenários apertados, com as câmeras bem perto dos atores – fica puxado para todo mundo. Imagine sussurrar falas com um enorme aspirador de pó ligado no recinto.
Então, Nolan – diretor e roteirista do filme – e o diretor de fotografia do longa, Hoyte van Hoytema (Oppenheimer) pediram à equipe da IMAX que desenvolvesse o “blimp”. Esse equipamento funciona como uma estrutura de isolamento acústico que envolve a câmera. Assim, ela abafa o ruído a ponto de permitir que as vozes dos atores sejam gravadas com clareza. Como o isolador da câmera era gigante e afastava os atores da lente, a equipe usou um curioso sistema de espelhos para alinhar o olhar dos atores.
Afinal, por que tanto esforço? Em suma, para fazer história (no quesito técnico, pelo menos). A imagem de A Odisseia possui a maior nitidez e o maior nível de detalhes já alcançados na história do cinema. No mundo digital, as imagens são formadas por pequenos pontos chamados pixels. A película analógica de IMAX 70mm não usa pixels. Ela captura a luz de forma puramente química. Mas os especialistas calculam que, se fôssemos transformar a riqueza desse rolo físico numa imagem digital, ela seria o equivalente a 18K.
Pense numa smart TV 4K – a que você provavelmente tem em casa ou ao menos já viu em alguma loja por aí. Esses aparelhos já oferecem uma imagem bem nítida, não? Agora você pode pensar que 18K é apenas umas “quatro vezes” melhor que a TV 4K. Mas a resolução cresce tanto para os lados quanto para cima. Na prática, a resolução de 18K de A Odisseia é tão absurdamente densa que equivale a colocar cerca de 20 televisões 4K perfeitamente juntas, formando uma única parede gigante de imagem ultra nítida.
A questão é: o filme, enquanto história contada, faz jus a esse aparato todo? Se você tiver a oportunidade de assisti-lo em IMAX (ou em outro formato que seja), veja com seus próprios olhos. Cá nesta newsletter, você pode ao menos saber o que a crítica achou da nova empreitada de Nolan. – P.S.
O filme que a crítica internacional viu em A Odisseia
Ainda não assistimos A Odisseia. Mas fiz um exercício que gosto bastante quando um lançamento desperta tanta expectativa: fui ler as primeiras críticas da imprensa internacional para tentar entender que filme Christopher Nolan realmente entregou. Passei pela Variety, The New York Times, The Hollywood Reporter, The Guardian e IndieWire. E saí com a impressão de que elas descrevem um filme um pouco diferente daquele que o marketing vendeu nos últimos meses.
Os trailers destacavam monstros mitológicos, batalhas e paisagens gigantescas. Tudo isso aparece nas críticas. O curioso é que quase nenhuma delas trata esses elementos como o principal atrativo da experiência. Pelo contrário: a sensação é de que Nolan usa a jornada de Odisseu para falar muito mais sobre o que acontece depois da guerra do que sobre a guerra em si. Lendo essas análises em sequência, a Guerra de Troia parece funcionar quase como um prólogo. O verdadeiro filme começa quando ela termina.

É uma leitura que atravessa praticamente todos os textos. O Guardian descreve A Odisseia como uma história sobre “o verdadeiro custo da guerra”, enquanto a Variety e o The Hollywood Reporter enxergam um protagonista marcado pelo trauma e pelo peso das perdas. Em comum, as críticas parecem olhar para Odisseu menos como um herói enfrentando ciclopes, sereias e deuses e mais como alguém tentando descobrir quem ainda é depois de duas décadas de conflito e exílio. Apesar da escala gigantesca, a impressão é que Nolan constrói um filme surpreendentemente íntimo.
Talvez por isso exista tanto consenso em torno da atuação de Matt Damon. Cada veículo escolhe palavras diferentes para descrevê-la, mas todos parecem concordar que esse é um Odisseu cansado, vulnerável e muito mais humano do que a imagem tradicional do guerreiro invencível. O IndieWire chega a chamar o trabalho de Damon de um dos melhores de sua carreira. Entre os coadjuvantes, Samantha Morton também aparece repetidamente como um dos destaques por sua interpretação de Circe.
Também chamou minha atenção a forma como vários críticos aproximam A Odisseia do restante da filmografia de Nolan. O The New York Times identifica temas recorrentes do diretor, como memória, identidade e culpa. Já o IndieWire argumenta que o filme funciona quase como uma síntese de sua obra, reunindo discussões sobre tempo, destino e responsabilidade que aparecem desde Amnésia e A Origem até Oppenheimer. Em vez de parecer uma ruptura, a adaptação de Homero soa, pelas críticas, como uma continuação bastante natural daquilo que Nolan vem explorando há mais de duas décadas.
Outro aspecto que divide um pouco mais as opiniões é a estrutura narrativa. Assim como no poema de Homero, Nolan aposta em uma história fragmentada e não linear. A Variety (que destaca que o filme impressiona mais do que emociona) considera que essa escolha reforça a sensação de desorientação vivida por Odisseu, enquanto o The Hollywood Reporter entende que ela acaba prejudicando o ritmo em alguns momentos. O veículo também faz ressalvas à escalação de Tom Holland como Telêmaco. Ainda assim, essas observações aparecem quase como notas de rodapé diante do entusiasmo geral.
No fim das contas, o que mais me chamou atenção não foi descobrir que A Odisseia parece ser um grande espetáculo visual — isso já era esperado de um filme de Christopher Nolan. Foi perceber que a conversa da crítica internacional está muito menos interessada nos monstros do que nas cicatrizes deixadas por eles. Se essa leitura se confirmar na tela, talvez A Odisseia seja menos um filme sobre uma viagem de volta para casa e mais sobre a impossibilidade de voltar sendo a mesma pessoa. – A.F.
Principais estreias no cinema
Se tem um tema que permeia as principais estreias desta semana nos cinemas, eu diria que é recortes históricos. Christopher Nolan tenta condensar milênios de literatura num blockbuster, Guillaume Nicloux traz a cinebiografia da mulher que praticamente inventou o conceito de “celebridade global” no século 19 e o circuito de relançamentos traz um dos maiores clássicos do Cinema Novo brasileiro de volta às telonas.
A Odisseia
Em A Odisseia, Christopher Nolan tenta a proeza de enfiar um poema épico de três mil anos atrás num blockbuster de três horas com roupagem moderna e sotaques americanos (o que desagradou muita gente). A trama você provavelmente conhece: Odisseu (Matt Damon) tenta voltar para casa após a Guerra de Troia, enfrentando deuses e monstros, enquanto sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) lidam com o assédio de Antínoo (Robert Pattinson). A parceria de Nolan, que assina direção e roteiro, e Hoyte Van Hoytema (Oppenheimer), diretor de fotografia do longa, garante ao menos mais um espetáculo visual impecável para as telonas. Principalmente, as IMAX, como você leu há pouco.
A Divina Sarah Bernhardt
Avançando um pouco no tempo, o longa de Guillaume Nicloux nos joga direto na Paris de 1896, no auge da Belle Époque (aquela época caótica na qual um contrapeso de um lustre despencou na Ópera Garnier e acabou inspirando O Fantasma da Ópera). No meio desse turbilhão, acompanhamos a vida de Sarah Bernhardt (Sandrine Kiberlain), diva do teatro francês, rosto do movimento Art Nouveau e, basicamente, a mulher que inventou o conceito de “celebridade global” muito antes das redes sociais. O filme destrincha como ela construiu sua fama em papéis dramáticos, viveu um romance com Lucien Guitry e desafiou as convenções sociais da época, sendo uma das grandes pioneiras do próprio cinema.
Xica da Silva
Vamos avançar mais um pouquinho no tempo. E, ao mesmo tempo, voltar nele. É que o clássico de 1976, dirigido por Cacá Diegues, volta aos cinemas. O longa acompanha a inacreditável, mas verídica, trajetória da mulher escravizada (vivida por Zezé Motta) que virou a rainha de Diamantina após seduzir o milionário contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas). Com festas nababescas, banquetes e uma ostentação que fez barulho até na corte de Portugal, a produção é um marco do Cinema Novo que você provavelmente conhece por tabela. Isso porque, 20 anos depois, a história virou aquela novela de Walcyr Carrasco que transformou Taís Araújo numa estrela nacional. Se quiser assistir em casa, dá para comprar ou alugar o filme no Apple TV.
Otras cositas más sobre cinema
- Falando em A Odisseia e Robert Pattinson, saiu… algo concreto sobre Batman: Parte 2 na quarta-feira (15). Finalmente temos um primeiro vislumbre de Pattinson de volta ao manto trevoso. Originalmente previsto para estrear em 2 de outubro de 2026, o longa de Matt Reeves foi adiado mais uma vez. A Warner Bros. tinha transferido o lançamento para 1º de outubro de 2027. Agora, o filme está marcado para chegar às telonas em 18 de fevereiro de 2028. O longa terá o retorno de Pattinson como o Cavaleiro das Trevas, com Scarlett Johansson e Sebastian Stan no elenco, além de Charles Dance, Brian Tyree Henry e Sebastian Koch. Let them cook.
- Outra curiosidade sobre A Odisseia: Nolan ainda nem lançou o filme em boa parte do mundo, mas ele já está quebrando recordes. O BFI IMAX, em Londres — a maior sala de cinema do Reino Unido — arrecadou cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,5 milhões) com a venda de 28 mil ingressos nas primeiras 24 horas de pré-venda. O valor mais que dobrou o recorde anterior, que pertencia a Duna: Parte Dois. E quase quadruplicou a marca registrada por Oppenheimer. Pelo visto, convencer o público de que A Odisseia precisa ser vista na maior tela possível está funcionando muito bem.
Também acabou de chegar…
- Quarterback — terceira temporada da série documental que acompanha os bastidores da vida de quarterbacks da NFL estreou na Netflix;
- Kraven, o Caçador — filme da Marvel sobre a origem de um dos maiores inimigos do Homem-Aranha estreou no Prime Video;
- Parceiras no Crime — série sobre uma contadora que descobre que sua melhor amiga é uma assassina profissional estreou no Prime Video;
- Will Trent: Agente Especial — quarta temporada da série policial sobre o investigador do Georgia Bureau of Investigation estreou no Disney+;
- O Falcão do Golfe — série de comédia estrelada por Will Ferrell sobre um ex-campeão que tenta voltar ao circuito profissional de golfe estreou na Netflix;
- 23.000 Vidas — drama inspirado na história real de jovens voluntários que resgataram milhares de refugiados no Mar Mediterrâneo estreou na Netflix;
- Heartstopper Para Sempre — especial que acompanha Nick e Charlie enfrentando os desafios de um relacionamento à distância estreou na Netflix;
- Undertone — suspense sobre uma apresentadora de podcast paranormal que passa a receber gravações misteriosas estreou na HBO Max.
O que chega aos streamings nesta semana
O que esperar para a próxima semana nos streamings?
- WWE: Surreal — terceira temporada da série documental que mostra os bastidores da WWE e da preparação para a WrestleMania 42 estreia na Netflix na próxima terça;
- Elize: Sombras de Uma Mulher — filme inspirado no caso de Elize Matsunaga estreia na Netflix na próxima quarta;
- Uma Loja Para Assassinos — segunda temporada da série sul-coreana sobre Jian enfrentando uma nova onda de assassinos estreia no Disney+ na próxima quarta;
- Pompeia: Além do Tempo com Tom Hiddleston — documentário apresentado por Tom Hiddleston que reconstitui as últimas horas de Pompeia estreia no Disney+ na próxima quinta;
- Sou Luna: De Volta à Pista — nova série acompanha o retorno de Luna ao Jam & Roller após um misterioso acidente e estreia no Disney+ na próxima quinta;
- Stuart Não Consegue Salvar o Universo — derivado de The Big Bang Theory acompanha Stuart Bloom tentando impedir um apocalipse multiversal e estreia na HBO Max na próxima quinta;
- Hamnet: A Vida Antes de Hamlet — drama dirigido por Chloé Zhao imagina como a morte do filho de William Shakespeare inspirou a criação de Hamlet e estreia no Prime Video na próxima sexta;
- 72 Horas em Miami — comédia sobre um executivo que acaba por engano em uma despedida de solteiro de três dias estreia na Netflix na próxima sexta.
Sugestões e críticas podem ser enviadas para ana.figueiredo@olhardigital.com.br e pedro.spadoni@olhardigital.com.br. Até a próxima sexta! Bom fim de semana!
Ana Luiza Figueiredo (A.F.) e Pedro Spadoni (P.S.)
Repórteres do Olhar Digital
O post Uma odisseia tecnológica (e outras estreias da semana) apareceu primeiro em Olhar Digital.