A inteligência artificial (IA) já atua dentro das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), onde analisa informações de prontuários eletrônicos em tempo real. Ao cruzar dados de exames e sinais vitais, o algoritmo consegue antecipar, por exemplo, quadros de sepse horas antes dos primeiros sintomas aparecerem no leito. A tecnologia também avisa os profissionais sobre crises e instabilidades no paciente com cinco a 15 minutos de antecedência.
Essa capacidade de transformar dados que ficavam parados no computador num sistema de alerta contínuo pode mudar a rotina dos hospitais. Afinal, ganhar tempo antes de uma complicação se instalar permite à equipe médica intervir mais rápido. O ponto aqui é: a tecnologia pode ajudar a reduzir os índices de sequelas e mortes na UTI.
Dados são uma mina de ouro para a IA, mas o olhar do médico é necessário
Hoje em dia, os hospitais produzem uma quantidade enorme de dados que acabam esquecidos nos computadores. Em entrevista ao Olhar Digital, o doutor Sergio Naves, médico cardiologista e intensivista, explica que os sistemas de gestão hospitalar acumulam históricos, frequências cardíacas, pressões arteriais e exames o tempo todo.
No entanto, sem uma ferramenta inteligente, a instituição não consegue transformar essa montanha de arquivos em conclusões práticas sobre o estado real do paciente. É nesse cenário que os algoritmos se mostram úteis.
O dr. Naves destaca que a IA consegue ler tabelas de dados em tempo real e antecipar quadros graves antes de sintomas ficarem visíveis no leito. “Já existem algoritmos que detectam a sepse seis horas antes e a instabilidade hemodinâmica de cinco a 15 minutos antes dos sinais clínicos convencionais”, diz o especialista, que também é coordenador médico num hospital da Unicamp.

O avanço dessa vigilância digital é respaldado por pesquisas científicas internacionais. Um estudo publicado na revista Nature, desenvolvido por pesquisadores do Google, mostrou que sistemas de IA conseguem analisar prontuários e históricos de saúde para auxiliar médicos em decisões complexas de acompanhamento do paciente.
Além disso, um artigo publicado na BMJ Innovations aponta que hospitais estão trocando medições manuais e periódicas por um monitoramento contínuo e automatizado feito por softwares.
Apesar dos benefícios, a aplicação da tecnologia envolve riscos operacionais. O intensivista alerta que a IA hospitalar enfrenta problemas como modelos de baixa precisão, calibração inadequada para diferentes populações e altas taxas de alarmes falsos (o que também ocorre no contexto de tempestades solares, diga-se).
O estudo publicado na BMJ Innovations reforça que, quando o sistema dispara avisos errados com frequência, as equipes de saúde correm o risco de sofrer fadiga de alertas e ignorar emergências reais.
Além das falhas técnicas, existem limites práticos que o programa de computador não consegue ultrapassar. O algoritmo calcula a probabilidade de uma complicação acontecer, mas não faz a síntese do diagnóstico nem descobre a causa exata do problema.

Ponderar riscos na saúde do paciente e escolher qual conduta tomar continua a exigir a experiência e o raciocínio do profissional humano na beira do leito.
A fronteira fica ainda mais clara diante de dilemas humanos e éticos. Naves pontua que o software não tem capacidade para conduzir decisões de fim de vida, nem para assumir a responsabilidade ética e legal pelo tratamento.
O modelo ideal seria uma parceria entre a inteligência artificial, que analisa dados, e o julgamento clínico porque este envolve ética e o aspecto humano da relação entre médico e paciente.
Doutor Sergio Naves, médico cardiologista e intensivista, em entrevista ao Olhar Digital.
Em suma, o que você precisa entender é o seguinte: os dados científicos e a rotina dos hospitais mostram que a IA é um copiloto de dados avançado. A ferramenta aponta perigos invisíveis no computador com horas de antecedência. Porém, a interpretação do quadro, as decisões delicadas e o acolhimento humano continuam dependendo do olhar e da sensibilidade do médico.
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