Sony PlayStation: quanto vale um Kojima?

Sony PlayStation: quanto vale um Kojima?

Nesta última semana, fomos surpreendidos com uma notícia bastante inesperada: depois de três décadas de colaboração entre Hideo Kojima e PlayStation, a Sony decidiu abandonar o desenvolvimento de Physint, próximo grande projeto do criador de Metal Gear Solid.

O jogo não morreu. Depois de passar cerca de três meses procurando um novo parceiro, a Kojima Productions encontrou justamente na principal concorrente da Sony uma nova casa: Physint agora será publicado pela Xbox.

À primeira vista, parece uma enorme derrota para o PlayStation. Afinal, estamos falando de Hideo Kojima, provavelmente um dos poucos desenvolvedores de games do mundo cujo nome consegue ser tão reconhecido quanto os próprios jogos que cria.

Mas existe outra maneira de olhar para essa história.

Segundo informações publicadas após o anúncio, Physint já teria perdido prazos e caminhava para ultrapassar consideravelmente seu orçamento, mesmo estando a vários anos de chegar ao mercado. Além disso, os dois jogos anteriores da Kojima Productions, Death Stranding e Death Stranding 2, não teriam atingido as expectativas de receita da Sony.

Isso transforma uma aparente disputa entre PlayStation e Xbox em uma pergunta muito mais interessante:

Quanto vale um Kojima?

Imagem: Jovem Nerd/ Reprodução

Até que ponto vale a pena para uma fabricante de consoles investir centenas de milhões de dólares em um dos maiores nomes da indústria quando prestígio, criatividade e influência cultural não necessariamente significam retorno financeiro?

Como citado anteriormente, Death Stranding e Death Stranding 2 não teriam atingido as expectativas de receita da Sony. Segundo estimativas da Alinea Analytics, Death Stranding 2 vendeu aproximadamente 2,5 milhões de cópias entre PlayStation 5 e PC, gerando cerca de US$ 170 milhões em receita. É muito dinheiro, mas não necessariamente muito lucro quando colocado diante dos custos de uma produção AAA dessa dimensão.

Com Physint, o sinal de alerta teria surgido ainda antes. O projeto já vinha perdendo prazos e caminhava para ultrapassar consideravelmente seu orçamento, apesar de ainda estar a anos do lançamento. Para a Sony, portanto, a decisão não envolvia apenas apostar novamente em Kojima, mas potencialmente investir centenas de milhões de dólares em uma propriedade intelectual que pertence à Kojima Productions e que não permaneceria para sempre exclusiva do PlayStation.

E é aqui que essa mudança se torna diferente do que normalmente vemos no cinema ou na música. Quando um grande diretor troca um estúdio de cinema por outro, o tamanho potencial do público praticamente não muda. Os cinemas continuam lá. Nos videogames, trocar de publicadora pode significar também trocar de plataforma — e, consequentemente, mudar completamente a quantidade e o perfil dos consumidores que podem comprar aquele produto.

O PlayStation 5 já ultrapassou 95 milhões de unidades distribuídas mundialmente. O Xbox Series X|S possui uma base instalada consideravelmente menor. Olhando apenas para consoles, portanto, Physint estaria deixando para trás a maior plataforma desta geração.

Mas a conta da Microsoft parece ser outra.

A Xbox não pretende depender apenas de sua base de consoles. Physint será publicado também para PC, transformando o computador em parte fundamental da equação. Isso significa que Sony e Microsoft podem estar olhando para exatamente o mesmo projeto e chegando a conclusões financeiras completamente diferentes.

Para a Sony, Physint significava financiar um jogo extremamente caro, de uma propriedade intelectual que não controla e que eventualmente poderia chegar a outras plataformas.

Para a Microsoft, significa adicionar Hideo Kojima ao seu catálogo de Xbox e PC e fortalecer uma parceria que já inclui OD.

O valor de Kojima, portanto, talvez não tenha diminuído. O que mudou foi quem consegue justificar pagar por ele.

A Sony não estava comprando Physint

Imagem: Kotaku/ Reprodução

Existe ainda outro detalhe importante nessa conta: Physint não pertence à Sony. A propriedade intelectual continua sendo da Kojima Productions.

Isso muda bastante a maneira de enxergar um investimento que pode chegar às centenas de milhões de dólares. Quando a Sony financia um projeto de uma franquia própria, como God of War, The Last of Us ou Ghost of Tsushima, ela não está pagando apenas pela produção e pelas vendas daquele jogo. Está investindo também em um ativo que permanece dentro da companhia.

Um grande sucesso pode gerar sequências, remasterizações, adaptações para cinema e televisão, produtos licenciados e novos jogos durante décadas. Mesmo que determinado título tenha uma margem de lucro menor do que o esperado, parte do investimento ajudou a tornar uma propriedade da própria Sony mais valiosa.

Com Physint, a equação é diferente.

A Sony assumiria boa parte do risco financeiro de desenvolver e promover uma produção AAA extremamente cara, enquanto a propriedade intelectual permaneceria nas mãos da Kojima Productions. E, dependendo dos termos do acordo, o sucesso financiado hoje poderia se transformar amanhã em um jogo disponível também nas plataformas concorrentes.

É uma situação curiosa porque o maior ativo envolvido na negociação talvez nem seja Physint. É o próprio Hideo Kojima.

Seu nome atrai atenção da imprensa, gera expectativa antes mesmo de conhecermos o jogo e dá ao projeto uma relevância que poucos desenvolvedores conseguem alcançar. Só que Kojima também não pertence à Sony. Assim como a propriedade intelectual, ele pode levar esse prestígio para outro parceiro.

É aí que a decisão da Sony começa a parecer menos como o fim de uma relação histórica e mais como uma decisão de portfólio. Se a empresa precisa escolher entre investir algumas centenas de milhões em uma propriedade que não controla ou aplicar o mesmo dinheiro em franquias que permanecerão dentro do ecossistema PlayStation, a pergunta deixa de ser “Kojima vale esse dinheiro?”.

A pergunta passa a ser: quanto desse valor fica com a Sony depois que o jogo é lançado?

Então por que a Microsoft aceitou a conta?

Imagem: Microsoft/ Divulgação

Se Physint estava atrasado, acima do orçamento e vinha acompanhado do histórico comercial abaixo das expectativas da Sony com os dois Death Stranding, por que a Microsoft decidiu assumir o projeto?

Porque talvez as duas empresas não estejam comprando a mesma coisa.

Para a Sony, a conta parece cada vez mais concentrada em quanto custa produzir um jogo e quanto dinheiro ele consegue devolver. Para a Microsoft, Physint pode ter um valor que vai além das unidades vendidas.

A primeira diferença está no alcance. Embora o Xbox Series X|S tenha uma base instalada muito menor que a do PlayStation 5, a estratégia atual da Microsoft não depende exclusivamente da venda de consoles. O PC faz parte da equação desde o primeiro dia, ampliando consideravelmente o público potencial de um lançamento.

Existe também o valor para a própria marca Xbox. Hideo Kojima é um daqueles raros desenvolvedores que conseguem transformar o anúncio de um projeto em evento. Ter seu próximo grande jogo de espionagem associado ao Xbox ajuda a Microsoft a ocupar um espaço que, durante décadas, esteve muito mais relacionado ao PlayStation.

E existe ainda uma questão estratégica. A Microsoft já trabalha com Kojima em OD, tornando Physint não o início de uma relação, mas uma expansão dela. Para a empresa, aceitar o risco de um segundo projeto pode significar fortalecer uma parceria de longo prazo com um dos nomes mais conhecidos da indústria.

Isso significa que Physint não precisa necessariamente ser analisado apenas pela pergunta “quantas cópias precisa vender para se pagar?”. Parte do retorno pode estar na capacidade de atrair jogadores para o ecossistema Xbox e PC, gerar assinaturas, fortalecer a percepção da marca e colocar a Microsoft no centro das conversas quando um novo projeto de Kojima for apresentado.

A Sony aparentemente olhou para Physint e viu um projeto cada vez mais caro cujo retorno financeiro estava se tornando difícil de justificar.

A Microsoft pode ter olhado para o mesmo projeto e enxergado algo diferente: a oportunidade de comprar não apenas um jogo, mas alguns anos de Hideo Kojima associados à marca Xbox.

E talvez seja justamente aí que esteja a resposta para quanto vale um Kojima: depende muito mais de quem está pagando do que de quantas cópias ele consegue vender.

Leia Mais:

O post Sony PlayStation: quanto vale um Kojima? apareceu primeiro em Olhar Digital.