O El Niño pode se consolidar como o mais poderoso dos últimos 150 anos em 2026. Isso significa que as águas do Oceano Pacífico podem esquentar mais do que o normal. É um efeito dominó. O impacto se espalha pelo clima mundo afora. E isso, por sua vez, impacta a geração e distribuição de energia. Mas tecnologias – entre elas, a inteligência artificial – pode ajudar concessionárias a lidar melhor com o problema. Inclusive, no Brasil.
“Este é um evento sem precedentes. Nunca vi um sinal de El Niño tão intenso em nossas previsões”, disse Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office, agência britânica de meteorologia, em comunicado.
“A palavra ‘super’ é porque nunca antes tivemos um valor crescendo de maneira tão rápida”, explicou a meteorologista Ana Cristina Palmeira, em entrevista ao Olhar Digital.
Em agosto, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) sediou o seminário “Super El Niño e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro” para debater sobre segurança, confiabilidade e estratégias de adaptação diante de cenários climáticos extremos.
O Super El Niño de 2026 e como ele pode impactar a geração e distribuição de energia
Alertas emitidos pelo Met Office apontam que o aquecimento médio da superfície do oceano Pacífico equatorial, que costuma variar entre 1°C e 2°C, pode ultrapassar a marca dos 3°C nos próximos meses. Se a projeção se confirmar, o evento atual vai superar El Niños históricos – os ocorridos entre 1982 e 1983; 1997 e 1998; e 2015 e 2016.
Para compreender como o aquecimento de um único oceano consegue alterar o clima no resto do mundo, é preciso olhar para a mecânica da atmosfera.

Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste no Equador. Isso empurra as águas aquecidas para o lado ocidental do Pacífico. Durante o El Niño, esses ventos perdem força. Resultado: o calor se espalha em direção à América do Sul.
A intensidade do fenômeno é calculada a partir desse desvio térmico. A meteorologista Ana Cristina, especialista em interação oceano-atmosfera, explicou ao Olhar Digital que elevações de até 1°C caracterizam um evento fraco, enquanto marcas acima de 2°C definem um evento muito forte.
“Esse de 2026 está com taxas de aumento de temperatura bem maiores do que os anteriores”, observou Ana Cristina, que também é doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
As mudanças na circulação do ar vão provocar impactos severos, especialmente nas regiões tropicais. A previsão é de estiagens prolongadas na América Central, no Pacífico Ocidental, no sul da África e no nordeste da Austrália. Na Índia, o regime de monções já mostra chuvas muito abaixo da média.

No Brasil, os efeitos esperados são opostos a depender da região. No Sul, por exemplo, o panorama é de tempestades e chuvas volumosas, o que pode danificar a rede elétrica.
“O aumento das chuvas e da quantidade de ciclones no mar traz bastante ressaca, ondas mais elevadas e o mar bem mais agitado”, disse Ana Cristina. “Atinge o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e até um pedacinho do oeste de São Paulo.”
Já para as regiões Norte e Nordeste, o alerta é para escassez de água e calor sufocante. “Se estamos falando de ausência de chuvas, estamos falando de problemas com seca, abastecimento e agricultura”, observa a meteorologista. Isso pode reduzir a vazão de rios explorados por usinas do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Para poupar água, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aciona termelétricas. Além de mais poluentes, elas custam mais caro para serem usadas. E esse acréscimo é repassado, ao menos em parte, ao consumidor final por meio das bandeiras tarifárias.
Como a IA e outras tecnologias podem ajudar no gerenciamento de energia
Diante de preocupações com o Super El Niño de 2026, desde pesquisadores até concessionárias têm usado ferramentas tecnológicas para assumir uma postura cada vez mais preditiva, ao invés de reativa.
Pesquisadores da Uniasselvi, por exemplo, fizeram um estudo no qual usaram IA e automação para: 1) reunir informações climáticas; e 2) analisar possíveis impactos de um Super El Niño no Brasil.
Por meio da tecnologia, os pesquisadores cruzaram dados de órgãos como NOAA, NASA, INPE, INMET, CEMADEN e IRI. O objetivo foi comparar modelos climáticos e identificar padrões semelhantes entre as projeções.
“A inovação da pesquisa está em integrar IA, automação e conhecimento científico para apoiar decisões em situações de risco”, disse Pedro Sidnei Zanchett, professor da UNIASSELVI e orientador do estudo, em nota.

“As mudanças climáticas exigem uma nova forma de interpretar dados”, acrescentou Zanchett. Para Fábio Henrique Moisés, acadêmico de Engenharia de Software na Uniasselvi envolvido no estudo, “o desafio não é produzir mais dados, mas conectar o conhecimento que já existe”.
Para Jonatas Jaqmam, da AMcom, “o grande diferencial da IA é poder ampliar a capacidade analítica das equipes”. “A tecnologia consegue processar grandes volumes de dados em tempo real, identificar relações que muitas vezes passariam despercebidas e gerar informações qualificadas para apoiar decisões estratégicas em operações críticas”, explica o head da empresa brasileira especializada em soluções de tecnologia.
Entre concessionárias, dá para citar a Neoenergia como um caso prático de uso da tecnologia. A companhia tem usado modelos alimentados por dados meteorológicos de médio e longo prazo. Para quê? Segundo a empresa, para ajudar a planejar melhor o funcionamento das suas instalações e a distribuição de energia entre suas cinco distribuidoras.
Outro exemplo é a Engie Brasil. A empresa de geração de energia adota monitoramento climático contínuo, uso de IA, gestão do volume de água em reservatórios e manutenção de ativos para lidar com oscilações extremas de chuva e temperatura (como as previstas para ocorrer durante o Super El Niño).
No caso da IA, a tecnologia tem duas finalidades práticas, de acordo com a empresa:
- Antecipação de eventos extremos: identificação prévia de cenários climáticos severos que possam afetar as operações;
- Aumento da precisão espacial: refinamento geográfico das projeções e modelos meteorológicos adotados pela empresa.
Além disso, vale citar duas iniciativas recentes do ONS. Uma delas é uma seção em seu portal que reúne conteúdos sobre o El Niño e seus possíveis impactos sobre o sistema elétrico brasileiro. A outra é o TIAGO Dados Abertos, chatbot no qual você pode conversar com uma IA sobre os dados disponibilizados pelo ONS.
O Olhar Digital pediu à Aneel um posicionamento sobre o uso de IA no contexto de fornecimento de energia no país. Mas não tinha obtido retorno até a publicação desta matéria.
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