O Google está reformulando as configurações de privacidade do Google Search e do Google Play, e uma das mudanças passa longe de ser apenas técnica. A empresa passou a salvar automaticamente mídias enviadas pelos usuários durante pesquisas, incluindo imagens, arquivos de áudio e vídeos, e pode usar esse material para treinar modelos de inteligência artificial.
A mudança está sendo comunicada por e-mail com o assunto "Novas configurações de privacidade para serviços de pesquisa" e será aplicada globalmente ao longo das próximas semanas.
O que mudou e o que está sendo coletado
Antes dessa atualização, o histórico de atividades do Search e a personalização de resultados eram controlados por um único painel chamado Web & App Activity. A partir de agora, o Google está separando essas funções em dois controles distintos. Um deles é o Search Services History, que define se o histórico é salvo, e o Personalized Recommendations, que controla se o Google usa esse histórico para personalizar o que o usuário vê.

A separação em si não é necessariamente ruim. Ter controles mais granulares pode ajudar quem quer manter o histórico por conveniência mas não quer que ele influencie recomendações. O problema está em um detalhe que vem junto com essa mudança e que exige atenção.
Dentro do Search Services History, há uma subconfiguração chamada Save Media. Ela registra tudo que o usuário envia ao interagir com serviços de busca: fotos feitas no Google Lens, gravações de voz usadas no Translate, imagens carregadas para pesquisa reversa e interações por áudio com o Search Live. Esse material pode ser usado para desenvolver e melhorar os produtos do Google, incluindo modelos de IA.
O padrão que o Google adotou
A configuração Save Media chega ativada por padrão, ou seja, quem já tinha o Web & App Activity habilitado vai encontrar o Search Services History e a opção de salvar mídias ligados automaticamente após a transição.
Isso significa que, para a maioria dos usuários, a coleta começa sem nenhuma ação ativa da parte deles. A empresa afirma que as configurações podem ser desativadas a qualquer momento, mas a responsabilidade de fazer isso recai inteiramente sobre o usuário.
A Wired questionou um porta-voz do Google especificamente sobre o motivo de a funcionalidade vir ativada por padrão. A pergunta não foi respondida.

Nos detalhes sobre o uso dessas mídias para treinar IA, o Google exibe um aviso de alerta. Se o material salvo for usado no treinamento de modelos, ele é desvinculado da conta do usuário. Mas os dados podem ser mantidos por até quatro anos, mesmo que o usuário delete a atividade original.

A lógica por trás da coleta
Modelos de inteligência artificial não se alimentam apenas de texto. Eles precisam de diferentes tipos de entrada para se tornar mais precisos, e o Google está numa posição privilegiada para coletar esse material. A empresa tem acesso a buscas por imagem, pesquisas por voz, traduções faladas e interações em tempo real com o Google Lens. Nenhum dos concorrentes diretos tem uma base de usuários tão diversa em tantos contextos diferentes.
"O Google está numa posição única em comparação com muitas outras empresas," disse Thorin Klosowski, ativista sênior de segurança e privacidade da Electronic Frontier Foundation, à Wired. "Eles oferecem tantos serviços que as pessoas usam há tanto tempo que se tornaram bastante confortáveis e complacentes com a quantidade de dados coletados."

Como desativar
Para quem não quer que imagens e áudios de buscas sejam usados para treinar IA, o caminho é acessar o Google My Activity, selecionar a aba Search Services History e desmarcar a opção Save Media. É possível também desativar o histórico inteiro ou excluir entradas individualmente.
O Google afirma que as novas configurações começarão a aparecer nas contas nos próximos dias. Quem preferir agir antes que o material seja coletado deve verificar as configurações assim que a aba estiver disponível.
As mudanças se aplicam aos serviços de Search, Maps, Shopping, Hotels, Flights, Translate e News. O Google Play também recebe controles equivalentes, com configurações separadas para histórico de atividades e personalização de recomendações dentro da plataforma.
Acompanhe o TecMundo nas redes sociais. Inscreva-se em nossa newsletter e canal do YouTube.