Quando a tecnologia começa a piorar de propósito

Quando a tecnologia começa a piorar de propósito

Olha só: há alguns dias, um vídeo relativamente simples viralizou no YouTube. Até aí, nada de novo — vídeos viralizam o tempo inteiro. Mas esse chamou atenção por um motivo diferente. Ele não é só engraçado. Ele é desconfortavelmente verdadeiro.

O vídeo do Forbrukerrådet acompanha, com humor ácido, o dia a dia de alguém cujo trabalho é… piorar produtos digitais. Tornar experiências mais frustrantes, adicionar obstáculos, complicar o que era simples. Tudo isso com um sorriso no rosto e um tom quase corporativo. É engraçado, até deixar de ser.

O conceito por trás disso tem um nome curioso: “enshittification”. Não existe uma tradução perfeita para o português. “Bostificação” até funciona, mas perde o impacto. A ideia central, no entanto, é fácil de entender: serviços digitais que começam ótimos vão ficando progressivamente piores com o tempo.

E o mais interessante, ou preocupante, é que isso não é teoria da conspiração. Esse vídeo faz parte de uma campanha real do conselho de consumidores da Noruega, o Forbrukerrådet, dentro de um projeto maior chamado Breaking Free: Pathways to a Fair Technological Future. Um relatório de mais de 70 páginas tentando entender exatamente por que isso acontece e o que pode ser feito.

O ciclo inevitável da “enshittification”

Para explicar o conceito, o relatório descreve um padrão que, depois que você percebe, aparece em todo lugar. Pensa em qualquer serviço digital que você usa há anos. Streaming, redes sociais, apps de produtividade. No começo, a proposta era irresistível: barato, funcional, cheio de recursos. Às vezes até gratuito.

Esse é o primeiro estágio: atrair usuários. Muitas empresas operam no prejuízo nesse momento, só para ganhar escala e dominar o mercado.

Depois vem o segundo estágio. Com uma base sólida de usuários, muitas vezes “presos” por hábito, contatos ou dependência, a plataforma começa a extrair mais valor. Surgem anúncios, limitações artificiais, planos mais caros. O produto ainda funciona, mas já não é tão amigável quanto antes.

E então chega o terceiro estágio. Quando nem os usuários nem os parceiros comerciais escapam. A plataforma passa a otimizar tudo para maximizar retorno financeiro, mesmo que isso degrade a experiência para todos os lados.

O exemplo clássico? Serviços de streaming. Catálogos fragmentados, preços mais altos, anúncios em planos pagos, restrições de uso que simplesmente não existiam antes. E o pior: muitas vezes você continua usando, porque sair custa mais do que ficar.

Por que isso acontece?

O relatório evita simplificações do tipo “as empresas são gananciosas”. E isso é importante. O problema é mais estrutural. Segundo o documento, a “enshittification” é resultado de um mercado digital altamente concentrado, dominado por grandes empresas com poder suficiente para ditar regras.

Um dos principais mecanismos aqui é o chamado vendor lock-in. É quando você fica preso a um serviço porque sair dele é difícil, caro ou inconveniente. Pense em redes sociais: sair de uma plataforma significa perder contatos, histórico, conexões. Na prática, você não sai.

Outro fator é a falta de interoperabilidade. Serviços que não conversam entre si de propósito. Ecossistemas fechados onde tudo funciona bem, desde que você não tente sair.

Tem também o design manipulativo. Interfaces pensadas não para facilitar sua vida, mas para te manter engajado, consumindo mais, clicando mais, ficando mais tempo. Notificações, scroll infinito, recompensas psicológicas.

E isso não se limita ao software. Dispositivos físicos também entram no jogo: produtos difíceis de reparar, peças proprietárias, bloqueios digitais. Tudo pensado para manter você dentro do sistema.

Se esse cenário já parece complicado, a chegada da IA generativa adiciona uma nova camada. O relatório aponta que a inteligência artificial pode acelerar esse processo. E não é difícil entender por quê.

Por um lado, temos uma enxurrada de conteúdo gerado automaticamente, o chamado AI slop. Textos, imagens, vídeos de baixa qualidade sendo produzidos em escala industrial. Isso polui a internet e reduz o valor do conteúdo como um todo.

Por outro, há o modelo de negócios. IA é cara. Treinar, rodar e manter esses sistemas exige infraestrutura pesada. E muitas empresas ainda não encontraram formas sustentáveis de monetizar isso.

O que acontece então? O mesmo ciclo: acesso gratuito no início, seguido por assinaturas, anúncios e coleta agressiva de dados quando a conta chega. A IA, que deveria ser uma ferramenta transformadora, corre o risco de se tornar apenas mais um vetor de degradação da experiência digital.

O que pode ser feito?

Aqui entra a parte mais prática do relatório. Ele propõe caminhos para tentar reverter esse cenário. O primeiro é a interoperabilidade. Permitir que serviços diferentes se comuniquem e que usuários possam migrar seus dados facilmente. Isso reduz o aprisionamento digital.

O segundo é a neutralidade dos dispositivos. A ideia de que você deveria poder instalar qualquer software no hardware que comprou. Sem bloqueios artificiais.

Também há um foco forte na aplicação de leis existentes, como as regulamentações europeias de proteção de dados e concorrência. A questão não é criar regras novas, mas fazer com que as atuais realmente sejam cumpridas.

Outro ponto importante é o incentivo a alternativas abertas e descentralizadas. Tecnologias que não dependem de uma única entidade controladora. Aqui, inevitavelmente, entra o universo open source.

E por fim, há discussões sobre limitar o poder de empresas que controlam ao mesmo tempo infraestrutura e serviços, reduzindo conflitos de interesse.

Um problema técnico… ou cultural?

Se você acompanha o mundo Linux, talvez já tenha percebido: muitas dessas ideias não são exatamente novas por aqui. Software livre, interoperabilidade, controle do usuário sobre o sistema, esses conceitos sempre fizeram parte da cultura open source.

Isso não significa que o Linux está imune a problemas. Mas o modelo é diferente. Não existe uma única empresa controlando tudo. Não existe um ecossistema fechado dominante da mesma forma. E talvez por isso, para muita gente, o Linux represente uma alternativa real a esse ciclo de degradação.

Não porque ele seja perfeito, mas porque ele segue uma lógica diferente.

No fim das contas, a “enshittification” não é só um problema de tecnologia. É um problema de incentivos. Enquanto o sucesso de um produto for medido principalmente pelo quanto ele extrai de valor dos usuários e não pelo valor que ele entrega, esse ciclo tende a se repetir.

O relatório norueguês tenta propor soluções estruturais. Algumas fazem mais sentido, outras podem gerar debate. Mas o diagnóstico é difícil de ignorar. E talvez o mais interessante seja isso: perceber que aquela sensação de que “as coisas estão piorando” não é só impressão.

Existe um padrão. Existe um sistema por trás.

E agora?

A campanha do Forbrukerrådet é, no mínimo, um convite à reflexão. Nem todas as soluções vão funcionar em todos os contextos. Nem todos vão concordar com o papel do Estado nessas mudanças. Mas ignorar o problema também não parece uma opção.

A pergunta que fica é simples: até que ponto estamos dispostos a aceitar produtos que pioram com o tempo?E tudo isso ocorre em meio a um esforço da União Europeia em reduzir a dependência de soluções fechadas em nome da soberania tecnológica.