Pesquisadores da Washington University School of Medicine em St. Louis (EUA) realizaram um estudo que apontou que canetas utilizadas para controle do diabetes e obesidade, da classe GLP-1 (como semaglutida e tirzepartida), podem ajudar no tratamento e prevenção de vício em várias substâncias.
Estrutura do estudo
- Para chegar ao resultado, eles analisaram registros de saúde de mais de 600 mil ex-membros das Forças Armadas dos Estados Unidos que passam por atendimento no sistema público de saúde local voltado para veteranos;
- Todos tinham diabetes tipo 2 e foram acompanhados por três anos;
- Eles concluíram que medicamentos da classe GLP-1 possuem menor risco de desenvolver transtornos relacionados ao uso de substâncias viciantes;
- Também foi apontada uma diminuição no risco de resultados mais graves, como overdose e morte, em pessoas que já possuíam os transtornos.
O cerne do achado é que, enquanto outros tratamentos focam no combate ao vício em uma droga específica, o GLP-1 consegue atuar em via biológica comum para todos os vícios.
Ao g1, o médico psiquiatra e coordenador da pós-graduação do Hospital Heidelberg, Roberto Ratkze, explicou como o GLP-1 pode auxiliar no combate aos vícios.
“Existem fatores biológicos individuais e comuns nas dependências químicas. Uma via comum é a dopaminérgica mesolímbica, que vai da área tegmental ventral até o núcleo accumbens, que é considerado o núcleo do prazer, fazendo parte do sistema de recompensa cerebral. Aparentemente, há receptores GLP-1 na área tegmentar ventral, isto é, a via do prazer é modulada pelos análogos GLP-1.”
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo afirmam que a medicação atua em receptores cerebrais localizados em regiões responsáveis pela modulação do processamento de recompensa. Esse sistema cerebral nos faz sentir prazer ou satisfação ao realizarmos algumas atividades. Contudo, no caso do vício, o sistema é “sequestrado” pela substância em questão.

Da mesma maneira que os pacientes com obesidade apontam o fim da obsessão constante por comer, acredita-se que o GLP-1 tem o mesmo efeito com as drogas. Ele acalma o vício, diminuindo a preocupação e impulso de buscar usar mais a substância.
“É possível que essas drogas, baseadas no mecanismo de ação dos hormônios incretínicos, se tornem importantes coadjuvantes no tratamento de adicções (vícios) a drogas ou jogos e possam modificar outros comportamentos humanos. Serão necessárias mais investigações a esse respeito. Temos que tomar um pouco de cuidado com o excesso de entusiasmo e com o impulsionamento mercadológico na venda de produtos”, afirma Almir Tavares, médico e professor de Neurociências e Psiquiatria da UFMG.
A pesquisa ainda acompanhou mais de 500 mil pessoas que não possuíam histórico de dependência química. Entre os que utilizaram o GLP-1 tiveram risco 14% menor de desenvolver transtornos de vício. Conforme a substância, o medicamento reagiu de forma distinta:
- Opioides (25% de redução);
- Cocaína (20%);
- Nicotina (20%);
- Álcool (18%).
Ainda, é importante destacar que a substância tem potencial de tratar o vício em metanfetamina, que, atualmente, ainda não tem tratramento medicinal específico.
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Futuro
Mesmo com empolgantes resultados, os pesquisadores frisam que se tratou de uma pesquisa observacional, com base em registros históricos de diabéticos. Agora, os cientistas devem realizar ensaios clínicos para testar o GLP-1 especificamente como tratamento para vício em pessoas sem diabetes ou obesidade.
Eles pontuam ainda que médicos e pacientes devem ter cautela e não tratar o medicamento como um tratamento imediato, enfatizando que os tratamentos atuais existentes devem seguir como primeira opção.
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