Quando a Microsoft encerrou o suporte ao Windows 10 em outubro, mais de 400 milhões de computadores ao redor do mundo foram oficialmente classificados como “obsoletos”. Não porque deixaram de funcionar, mas porque não atendem aos requisitos, muitos deles controversos, do Windows 11.
Um montante gigantesco de máquinas perfeitamente funcionais, algumas com processadores tão competentes quanto os Core i5 de 5ª ou 6ª geração, subitamente foi colocado em uma situação incômoda: continuar usando o Windows sem atualizações de segurança ou aceitar que o sistema operacional os considera ultrapassados e fazer uma mudança radical.
Para quem depende do computador para trabalhar, estudar, empreender ou simplesmente navegar na internet, isso é mais do que um incômodo técnico. É a sensação de ver um equipamento que ainda tem muito a oferecer sendo empurrado para a aposentadoria prematura.
Mas esse destino não é inevitável. A verdade é que computadores “fora da lista do Windows 11” ainda podem ser extremamente úteis. E não estamos falando de usos triviais. Há aplicações práticas, produtivas, criativas e algumas até lucrativas, que aproveitam toda a força restante desse hardware.
A seguir, vamos explorar 7½ caminhos reais para transformar um PC “sem suporte” em algo valioso, moderno e funcional. A meia opção vem logo de início, exatamente porque ela precisa ser tirada do caminho antes que atrapalhe todo o resto.
A “meia coisa”: forçar o Windows 11
É natural: sempre que um sistema coloca limites artificiais, alguém tenta contornar. Com o Windows 11 não é diferente. Ferramentas como o Rufus permitem criar pendrives de instalação que ignoram exigências como o TPM 2.0, Secure Boot e listas de CPU aprovadas.
E claro, há scripts e tutoriais ensinando a modificar a instalação do Windows para que ela “finja” que tudo está dentro do esperado. Funciona? Muitas vezes funciona. Mas quase nunca é uma solução sólida.
É como colocar um andaime reforçando uma parede rachada: enquanto ninguém empurra, a estrutura se mantém. Quando a Microsoft soltar alguma atualização que dependa dos requisitos ignorados, a instabilidade ou a incompatibilidade aparecem.
A situação é ainda mais grave com quem tenta adotar o Windows LTSC como forma de prolongar a vida do sistema. Embora seja encantador pela ausência de bloatware, o LTSC não é destinado ao uso doméstico, possui ritmo diferente de atualizações e drivers, pode falhar com jogos e APIs modernas e tem licenciamento rígido voltado a empresas.
Usar o LTSC em desktops de escritório ou em computadores pessoais resulta em riscos técnicos e legais. Não à toa, temos casos reais, como a faculdade brasileira que acabou leiloando um prédio para pagar indenizações relacionadas ao uso indevido de Windows e Office.
Sendo bem objetivos, ficar lutando contra o Windows não faz o PC durar mais — só aumenta o estresse.
E já que a ideia aqui é transformar o computador em algo útil, está na hora de abandonar essa “meia opção” e ir para caminhos mais produtivos.
Transformar o computador em um ambiente funcional com Linux
Se o computador ainda roda tudo o que você precisa — navegador, vídeos, documentos, streaming, ferramentas de trabalho então a solução mais direta é simplesmente instalar alguma distro Linux e seguir usando normalmente.
E quando falamos de Linux, não estamos falando de algo complicado ou “para programadores”. Distribuições como Linux Mint e Zorin OS foram pensadas justamente para pessoas que vêm do Windows e querem estabilidade, facilidade e um ambiente familiar.
Algumas vantagens imediatas incluem:
- Velocidade maior em hardware antigo;
- Atualizações constantes e gratuitas;
- Maior segurança nativa;
- Compatibilidade com aplicativos modernos;
- Integração com navegadores, suítes Office, plataformas de vídeo e estudo.
Para quem tem jogos como foco, existe ainda o Bazzite, uma distribuição Linux específica para games, incluindo suporte pré-instalado ao Proton e drivers atualizados. Em muitos casos, jogos modernos rodam melhor em praticamente qualquer distro Linux do que rodariam no Windows 10 sem suporte.
Isso tudo sem pagar nada, sem violar licenças e sem precisar brigar com o sistema operacional.
Usar o PC para estudo de hardware, software e redes
Muita gente imagina que “estudar no computador” significa apenas assistir aulas, participar de cursos ou ler PDFs. Tudo isso continua válido. Mas um PC que deixou de ser a máquina principal pode se tornar ideal para estudos práticos, que envolvem desmontar, montar, testar, errar e aprender de forma concreta.
Estudo de hardware
Com uma máquina reserva, podemos:
- Abrir o gabinete ou carcaça sem medo;
- Aprender a identificar componentes;
- Testar upgrades de CPU, RAM, SSD;
- Limpar ventoinhas e aplicar pasta térmica;
- Entender falhas comuns de fonte, placa-mãe ou memória.
Foi assim que muitos técnicos iniciaram a carreira: desmontando o computador da família até entender como tudo funcionava.
Estudo de sistemas, redes e segurança
Outra área onde um PC antigo brilha é em testes de sistema operacional e ambientes de laboratório:
- Instalar múltiplas distribuições Linux;
- Configurar servidores locais;
- Aprender virtualização;
- Praticar cenários de cibersegurança;
- Testar ataques e defesas em um ambiente seguro e isolado.
Para quem quer entrar na área de TI, isso é ouro puro: um laboratório pessoal acelera o aprendizado mais do que qualquer curso teórico.
Transformar o PC em um Homelab
O conceito de Homelab ficou extremamente popular: usar computadores antigos como servidores domésticos que fornecem serviços internos para a casa inteira. Com isso, o computador deixa de ser “um desktop parado” e vira o coração de uma rede doméstica.
Entre os caminhos possíveis, destacamos três:
TrueNAS como servidor de armazenamento
Com o TrueNAS, o PC se torna um servidor de arquivos para backup, uma central de fotos e vídeos, assim como uma alternativa local a serviços em nuvem. Isso dá segurança, privacidade e organização ao mesmo tempo.
Proxmox para virtualização
O Proxmox permite rodar várias máquinas virtuais, incluindo Windows 11, Linux de diversos tipos e até servidores de teste. É uma ferramenta poderosa para quem pretende trabalhar com DevOps, infraestrutura ou testes de software.
Umbrel ou ZimaOS para serviços pessoais
Para quem quer praticidade, tanto o Umbrel quanto o ZimaOS trazem o poder do homelab em uma interface semelhante a de uma loja de aplicativos para celular, permitindo rodar softwares por toda a sua rede, como:
- Jellyfin (streaming de filmes e séries);
- Immich (backup inteligente de fotos);
- Serviços de notas, sincronização, automação;
- Self-hosting de diversas outras ferramentas do dia a dia.
Tudo isso em um único computador reaproveitado.
Transformar o PC em um console de games retrô
Se há um uso que conquista instantaneamente qualquer pessoa, é transformar o computador antigo em um console retrô completo. Com sistemas como o Batocera, o PC vira um videogame dedicado, com interface bonita, simples e cheia de opções.
De maneira geral:
- Praticamente qualquer PC roda consoles de 8 e 16 bits com folga;
- Computadores fabricados a partir de 2010 (e até mais antigos) conseguem rodar PlayStation 1 tranquilamente;
- E máquinas um pouco mais robustas chegam até a emulação de PS2, GameCube e Dreamcast.
É uma forma deliciosa de reviver clássicos e de dar um propósito totalmente novo a um PC que ficaria parado.
Criar um roteador/firewall avançado
Embora seja incomum, transformar um PC antigo em roteador pode render uma rede doméstica muito mais robusta e estável. Com um software como o pfSense, é possível:
- Criar regras de firewall altamente específicas;
- Segmentar redes (VLANs);
- Melhorar o controle de tráfego;
- Atingir estabilidade superior à de roteadores domésticos comuns.
Para isso, o único requisito é ter duas portas de rede, uma para a internet, outra para os dispositivos internos. É possível expandir esse número com placas adicionais.
Além de trazer mais desempenho, essa configuração proporciona uma experiência prática valiosa para quem quer trabalhar com redes.
Vender as peças
Se nenhuma das alternativas anteriores faz sentido, vender o computador ou suas peças é uma maneira eficiente de recuperar parte do investimento e ajudar a fazer um upgrade.
Em desktops, isso é bastante fácil:
- CPUs usadas podem render um valor razoável;
- Placas-mãe de gerações anteriores ainda são procuradas;
- Módulos de RAM DDR3 ou DDR4 costumam vender rápido;
- SSDs sempre têm compradores (embora possa fazer mais sentido manter ou acrescentar se tiver algum PC novo);
- Fontes e gabinetes têm bom mercado, entretanto são itens facilmente reutilizáveis em novos PCs.
Em notebooks, mesmo os quebrados podem ser vendidos em partes. Isso reduz o lixo eletrônico, libera espaço e coloca o hardware nas mãos de quem realmente precisa.
Doar para quem precisa
Entre todas as possibilidades, doar um computador ainda funcional é uma das mais nobres. E mais útil, especialmente se ele for preparado antes da doação. Um PC antigo, configurado com Linux Mint ou Zorin OS, se torna uma ferramenta poderosa para:
- Estudantes sem computador;
- Pessoas em situação de vulnerabilidade;
- Instituições comunitárias;
- ONGs que precisam digitalizar processos;
- Projetos sociais locais.
Muitas vezes, esse gesto significa acesso ao ensino online, uma chance de emprego, além, é claro, de ser uma oportunidade de inclusão digital.
É o tipo de decisão que prolonga a vida útil da máquina e, ao mesmo tempo, muda a vida de alguém.
Seu PC ainda não chegou ao fim
A maioria dos computadores “sem suporte ao Windows 11” está longe de ser lixo eletrônico. São máquinas com vida útil, desempenho suficiente e diversas possibilidades de reaproveitamento inteligente.
Reaproveitar um PC antigo não é apenas economia. É reduzir o impacto ambiental, evitar lixo eletrônico, aprender, criar, ensinar, doar, transformar. E, principalmente, é recusar a ideia de que só porque uma empresa disse que algo não serve mais, aquilo realmente perdeu valor.
Agora queremos ouvir a sua opinião. Quais outros usos você daria para um computador que não atualiza para o Windows 11?
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