Fedora 44 prepara uma mudança histórica no console do sistema

Fedora 44 prepara uma mudança histórica no console do sistema

O Fedora nunca teve receio de adotar tecnologias emergentes antes da maioria das distribuições, e essa postura volta a ficar evidente com uma mudança importante confirmada para o Fedora 44. O projeto recebeu a aprovação oficial do Fedora Engineering Steering Committee (FESCo) para substituir o tradicional fbcon, console de framebuffer que roda no próprio kernel Linux, pelo kmscon, uma alternativa moderna que opera em espaço de usuário.

A decisão marca o início do processo para aposentar décadas de dependência do fbdev/fbcon, abrindo caminho para uma pilha mais limpa e segura.

O que está mudando exatamente

O console em questão é aquela interface de texto exibida durante o boot do sistema ou ao pressionar combinações como Ctrl + Alt + F2 para acessar terminais virtuais. Atualmente, essa função é executada pelo fbcon diretamente dentro do kernel, exigindo uma camada de emulação fbdev mesmo em sistemas modernos que já utilizam DRM (Direct Rendering Manager) como padrão nos drivers de GPU.

Com o Fedora 44, o comportamento padrão muda: o serviço de systemd responsável por iniciar terminais virtuais passará a apontar para o kmscon, um emulador de terminal baseado em Kernel Mode Setting (KMS) que roda fora do kernel, como qualquer outro programa do sistema.

Por que o fbcon está ficando para trás

O fbcon é considerado um componente antigo e pouco mantido. Um exemplo conhecido é a perda da função de scroll alguns anos atrás, removida após a descoberta de uma vulnerabilidade de segurança. Além disso, continuar dependente do fbdev em um mundo onde os drivers modernos usam DRM cria uma complexidade desnecessária na pilha gráfica do Linux.

Do ponto de vista de segurança, a situação é ainda mais delicada: como o fbcon roda dentro do kernel, qualquer falha pode resultar em kernel panic, derrubando todo o sistema. Já o kmscon, operando em espaço de usuário, pode simplesmente ser reiniciado pelo systemd sem comprometer a estabilidade geral da máquina.

A adoção do kmscon promete restaurar e expandir funcionalidades que se perderam com o tempo. Entre os principais avanços estão:

  • Scroll totalmente funcional no console;
  • Suporte avançado a layouts de teclado usando a biblioteca xkbcommon, incluindo múltiplos idiomas e atalhos configuráveis;
  • Compatibilidade aprimorada com Unicode, facilitando a exibição de caracteres especiais e idiomas diversos;
  • Renderização de fontes via Pango, melhorando a qualidade visual e o suporte a caracteres de largura dupla;
  • Possibilidade futura de rotação de tela e suporte básico a mouse e touchpad com recursos de copiar e colar.

Além disso, o layout de teclado no console passa a refletir automaticamente o mesmo padrão configurado no ambiente gráfico, corrigindo uma inconsistência antiga do sistema.

Segurança e planos de contingência

A migração para um console em espaço de usuário melhora significativamente a resiliência do sistema. Caso o kmscon falhe ao iniciar, o systemd tentará reiniciá-lo, e se houver falhas sucessivas, o sistema retorna automaticamente ao método antigo usando getty/fbcon. Usuários também poderão reverter manualmente a mudança, bastando desabilitar o serviço do kmscon ou remover o pacote.

Importante notar que o fbcon continuará compilado no kernel exatamente para garantir esse mecanismo de fallback e evitar qualquer impacto no processo de inicialização ou em situações críticas, como a solicitação de senha para volumes criptografados.

Como toda mudança profunda, os testes iniciais já revelaram alguns problemas em cenários específicos, incluindo relatos de uso elevado de CPU e pequenas falhas de renderização e entrada de teclado. A equipe do Fedora reconhece essas limitações e destaca que o kmscon segue em desenvolvimento ativo, com correções sendo incorporadas com base no feedback da comunidade.

O plano é amadurecer o kmscon ao longo do ciclo de desenvolvimento do Fedora 44, para que o novo console esteja estável antes da adoção definitiva.

Caso a transição seja bem-sucedida, abre-se a possibilidade de outras distribuições seguirem o mesmo caminho, contribuindo para a aposentadoria do fbdev/fbcon no kernel Linux. Para o Fedora, a mudança reforça seu papel como laboratório de inovação do ecossistema, apostando em soluções mais seguras, modernas e alinhadas com a arquitetura de software e hardware atual.

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