Por que a Riot Games não libera seus jogos para o Linux?

Por que a Riot Games não libera seus jogos para o Linux?

Mesmo com o Linux rodando quase tudo o que é jogo hoje em dia e com uma base de jogadores que cresce a cada ano, algumas grandes empresas parecem simplesmente ignorar o sistema do pinguim. Quem já tentou jogar títulos populares como Valorant, League of Legends ou EA FC 25 fora do Windows sabe bem o drama: o problema é raramente o jogo em si, mas o famigerado anti-cheat.

Esse “1%” de incompatibilidade é o bastante para manter milhões de jogadores presos ao sistema da Microsoft. Porque quando o seu game favorito não abre, pouco importa que existam outros 22 mil títulos compatíveis na Steam, a frustração fala mais alto.

Foi justamente isso que motivou a pergunta da Gabriela, membro da comunidade Diolinux, que há anos usa Linux mas ainda sonha em jogar Valorant sem precisar recorrer ao Windows. E a dúvida dela é a mesma de muita gente: por que a Riot Games e outras gigantes simplesmente não liberam seus jogos para o Linux?

A resposta, como veremos, não é só técnica, mas também política, econômica e até cultural.

O cerne do problema: os anti-cheats de nível kernel

Por que a Riot Games não libera seus jogos para o Linux 1

Antes de culpar a Riot ou a EA, vale entender o que realmente impede esses jogos de rodar. O obstáculo tem nome e sobrenome: anti-cheat de nível kernel.

Esses softwares são projetados para detectar trapaças em jogos competitivos, como wallhacks (ver através de paredes), aimbots (mirar automaticamente) e outros métodos usados para obter vantagem indevida. O problema é o nível de acesso que eles exigem: o “Ring 0” do sistema, o núcleo do sistema operacional.

No Windows, anti-cheats como o Riot Vanguard têm acesso total ao sistema. Eles funcionam como drivers, como os que controlam o teclado, a placa de vídeo e o disco rígido. Isso lhes dá poder para monitorar processos, verificar arquivos e impedir qualquer modificação suspeita.

No Linux, esse tipo de comportamento é deliberadamente bloqueado. O sistema é usado em servidores, supercomputadores e infraestruturas críticas. Permitir que um software de entretenimento atue no mesmo nível que um rootkit seria, no mínimo, temerário.

E aí nasce o impasse: para a Riot, abrir mão desse tipo de vigilância seria colocar o jogo em risco. Para o Linux, permitir esse nível de acesso seria comprometer sua segurança.

“Mas tem anti-cheat que funciona no Linux, não tem?”

Sim, e é aqui que a história fica interessante.

O site AreWeAntiCheatYet.com acompanha o suporte a anti-cheats no Linux e mostra que cerca de 40% dos jogos listados funcionam sem problema. Isso inclui títulos com proteções em user space, ou seja, acima do kernel, como qualquer outro aplicativo comum.

Nesses casos, o anti-cheat atua em uma camada menos profunda, o que significa menos controle — mas também menos risco. Essa é a estratégia usada por jogos que rodam bem no Proton, a camada de compatibilidade da Valve que traduz chamadas do Windows para Linux em tempo real, sem emulação.

A questão é que grandes publishers competitivas, como a Riot, preferem a abordagem mais invasiva. O Valorant, por exemplo, mantém o Vanguard ativo mesmo quando o jogo está fechado. Para elas, é um escudo permanente contra hacks, ainda que à custa da privacidade e da compatibilidade.

Quando segurança e liberdade colidem

Os anti-cheats de kernel existem por uma razão. Jogos como Valorant ou Apex Legends movimentam campeonatos e milhões em prêmios. Um único exploit pode comprometer toda a credibilidade do ecossistema competitivo.

Por outro lado, permitir um software rodar no nível mais profundo do sistema é abrir a porta para abusos. Um anti-cheat de kernel tem potencial para registrar tudo o que você faz no computador, desde o histórico de programas até as teclas digitadas. Não quer dizer que ele o faça, mas ele pode e esse “pode” é suficiente para preocupar.

Além disso, erros acontecem. O colapso global de sistemas causado pelo CrowdStrike em 2024 é um bom exemplo. Um driver mal configurado paralisou empresas, hospitais e aeroportos ao redor do mundo. Agora imagine algo semelhante vindo de um anti-cheat mal testado.

Por que eles não adaptam?

Além do fator técnico, há um motivo comercial: mercado.

Embora o número de jogadores Linux tenha crescido bastante impulsionado pelo Steam Deck e pelo trabalho da Valve, a fatia ainda é pequena frente ao ecossistema Windows. Para empresas como a Riot Games ou a EA, o investimento em adaptação e suporte técnico simplesmente não se paga.

Essas empresas sabem que, se 1% da base de jogadores não conseguir jogar, 99% ainda estará no Windows. E como o objetivo delas é proteger o competitivo e não democratizar o acesso, a equação é simples: não compensa mudar.

É um círculo vicioso. O Linux não tem suporte porque tem poucos jogadores, e tem poucos jogadores porque não tem suporte.

A única forma de quebrar isso seria alguém dar o primeiro passo, o que a Valve já fez ao criar o Proton e o Steam Deck. Mas agora falta um movimento semelhante do lado dos desenvolvedores de anti-cheat.

“Para de enfiar anti-cheat no meu kernel!”³

A frase pode soar como piada, mas é o grito de muitos usuários.

A comunidade Linux é apaixonada por liberdade, e não por acaso: ela cresceu em torno da ideia de transparência e controle total sobre o sistema. Quando uma empresa exige instalar um programa que roda com privilégios de kernel e continua ativo após o jogo fechar, é como se pedisse: “deixe que a gente vigie o seu PC por você”.

Isso é o oposto do que o Linux representa.

Por isso, mesmo que fosse tecnicamente possível rodar o Vanguard ou o EA Anti-Cheat via Proton, muitos usuários simplesmente não aceitariam. O custo ético é alto demais.

Uma luz no fim do túnel

Apesar do impasse, há uma ideia nova que pode mudar o jogo — literalmente.

O Multikernel Project propõe uma arquitetura onde vários kernels podem rodar simultaneamente, com um seletor que alterna entre eles conforme a aplicação. Isso significa que seria possível ter um kernel específico para jogos, isolado do resto do sistema.

Na prática, o usuário poderia abrir Valorant em um kernel customizado, homologado pelos anti-cheats, e continuar usando o kernel padrão do para todo o restante. Nenhum dos dois interferiria no outro.

Essa abordagem permitiria um kernel “selado”, verificado com hashes e assinaturas que impedem modificações, exatamente o que as empresas querem para evitar trapaças. Ao mesmo tempo, manteria o sistema base do usuário intocado e seguro.

O mais interessante é que, sendo uma implementação open source, o modelo ainda permitiria auditorias parciais mesmo com módulos proprietários. Isso criaria um meio-termo entre segurança corporativa e transparência comunitária.

O projeto está em revisão pelos mantenedores do kernel Linux. Mas, se aprovado, pode ser a primeira solução técnica realmente viável para compatibilizar anti-cheats invasivos com a filosofia do Linux.

O equilíbrio possível

O dilema entre liberdade e controle sempre foi o coração da disputa entre Linux e as grandes publishers. A Riot não é “contra o Linux” por ideologia; ela é contra abrir mão de um sistema que garante previsibilidade. Já o Linux não é “contra jogos”, apenas se recusa a comprometer sua segurança por causa deles.

Mas a história mostra que as barreiras caem quando há interesse suficiente. Foi assim com o DirectX, com o Steam e com o próprio Proton.

Se iniciativas como o Multikernel amadurecerem, talvez, em um futuro não tão distante, possamos rodar Valorant, Apex e EA FC nativamente, sem precisar “enfiar anti-cheat no kernel” (ou pelo menos não no kernel onde você realiza outras atividades).

Quer ver as demais perguntas que os membros do canal enviaram neste mês e as nossas respostas? Seja membro para assistir a esse e muitos outros conteúdos exclusivos, assim como para participar do nosso quadro mensal, Diolinux Responde!

Aproveite que está aqui e assista ao episódio do Diocast onde abordamos o panorama de anticheats no Linux.