Você está pronto para abraçar o vazio do Void Linux?

Você está pronto para abraçar o vazio do Void Linux?

Em 2008, um desenvolvedor com experiência prévia no NetBSD começou a trabalhar em um novo gerenciador de pacotes para Linux chamado XBPS, sigla para X Binary Package System. Ele tinha em mente criar uma ferramenta rápida, confiável, com boa quantidade de recursos e, principalmente, portátil o suficiente para funcionar independentemente de qualquer distribuição específica.

Projetos assim não são incomuns no mundo open source, mas o XBPS acabou seguindo um caminho um pouco diferente. Para testar o seu gerenciador de pacotes em um ambiente realmente neutro, o desenvolvedor decidiu criar um sistema operacional do zero. Se o XBPS funcionasse ali, funcionaria em qualquer lugar. Foi assim que nasceu o Void Linux, uma distribuição independente que, com o tempo, passou de experimento técnico para uma alternativa real dentro do ecossistema Linux, inclusive sendo comparada em alguns cenários com o Arch Linux.

Um sistema realmente independente

Diferente de distribuições como Ubuntu ou Linux Mint, que são baseadas em outras distros, o Void Linux é construído do zero. Isso significa que ele não herda decisões técnicas, ferramentas ou limitações de projetos anteriores. Todo o sistema gira em torno do XBPS, que continua sendo um dos seus pilares centrais.

Essa independência permitiu que o Void adotasse escolhas pouco comuns. Com o tempo, ele passou a se diferenciar não apenas por sua origem, mas por uma combinação de tecnologias que raramente aparecem juntas em outras distribuições.

Runit no lugar do Systemd

Uma das primeiras diferenças perceptíveis está no init system. Enquanto a maioria das distribuições modernas utiliza o systemd, o Void Linux opta pelo runit.

O init system é o primeiro processo iniciado após o kernel e é responsável por inicializar serviços essenciais do sistema, como rede, áudio e interface gráfica. O runit segue uma abordagem mais simples e direta, com foco em velocidade e conformidade com o padrão POSIX. Ele evita centralizar múltiplas funções em um único componente, ao contrário do systemd, que agrega diversas responsabilidades.

Apesar de o Void ser um dos principais divulgadores do runit, ele não é o único sistema a utilizá-lo. Distribuições como AntiX, Artix, Gentoo e Devuan também oferecem suporte a ele, e o runit pode aparecer até em sistemas BSD, incluindo o próprio NetBSD e o OpenBSD, além de poder ser utilizado em ambientes como o macOS para o gerenciamento de processos em nível de usuário.

GLIBC ou MUSL

Outro ponto que diferencia o Void Linux é a possibilidade de escolher entre duas bibliotecas C: a glibc e a musl.

Essas bibliotecas funcionam como uma camada intermediária entre os programas e o kernel Linux. A escolha entre elas impacta diretamente o comportamento do sistema. A GLIBC é a mais comum e oferece ampla compatibilidade, sendo utilizada pela maioria das distribuições. Já a MUSL foi projetada com foco em simplicidade, leveza e conformidade com o POSIX, resultando em binários menores e menor consumo de recursos.

Essa escolha, no entanto, pode trazer implicações. Nem todos os softwares funcionam perfeitamente com MUSL, especialmente aplicações proprietárias ou dependentes de comportamentos específicos da GLIBC. Ainda assim, o Void se destaca por oferecer suporte consistente à MUSL, algo relativamente raro. Um exemplo de outra distribuição que segue essa linha é o Alpine Linux, bastante utilizado em ambientes de containers justamente por sua leveza.

Rolling release com abordagem conservadora

O Void Linux segue o modelo rolling release, assim como o Arch Linux. Isso significa que o sistema é instalado uma única vez e atualizado continuamente, sem a necessidade de reinstalações periódicas. No entanto, existe uma diferença importante na forma como essas atualizações são conduzidas.

Enquanto o Arch tende a adotar rapidamente versões mais recentes dos pacotes, o Void mantém uma postura mais conservadora. As atualizações chegam de forma contínua, mas com um certo cuidado adicional, reduzindo a probabilidade de problemas inesperados. Isso cria um equilíbrio entre atualizações constantes e estabilidade, algo que pode ser relevante para quem pretende utilizar o sistema no dia a dia.

Minimalismo técnico na prática

O Void Linux é frequentemente associado ao conceito de minimalismo, mas não no sentido visual. Trata-se de um minimalismo técnico, onde o sistema entrega apenas o necessário para funcionar.

É possível rodar o Void com cerca de 250 MB de RAM, o que evidencia o impacto das suas escolhas de design. Não há componentes extras rodando em segundo plano sem necessidade, nem ferramentas instaladas por padrão além do essencial. Isso resulta em um sistema rápido e responsivo, mas que exige configuração manual para praticamente qualquer tarefa.

Você está pronto para abraçar o vazio do Void Linux (2)

Instalação e primeiros passos

O processo de instalação do Void Linux começa com o download da imagem no site oficial. Existem versões para diferentes arquiteturas, incluindo sistemas de 32 bits, além de opções com interface gráfica XFCE e imagens base em modo texto. Durante o download, o usuário também escolhe entre as versões com GLIBC ou MUSL.

Ao iniciar a imagem base, o sistema apresenta um ambiente em modo texto. As credenciais padrão são fornecidas na própria página de download e na tela inicial: o usuário root com senha “voidlinux” ou o usuário “anon”, também com a mesma senha. Para iniciar o instalador, é necessário acesso administrativo, o que pode ser feito com o comando void-installer ou sudo void-installer.

Você está pronto para abraçar o vazio do Void Linux (1)

O instalador é baseado em texto, mas bem organizado. Seguindo a sequência de etapas, é possível concluir a instalação sem grandes dificuldades. Após o reboot, o sistema inicia novamente em modo texto, sem interface gráfica instalada.

Você está pronto para abraçar o vazio do Void Linux (3)

Instalando um ambiente gráfico

Para utilizar o sistema com interface gráfica, é necessário instalar manualmente os componentes desejados. Durante os testes, a instalação do KDE Plasma foi relativamente simples, mas exigiu alguns ajustes adicionais, especialmente na configuração do SDDM, o gerenciador de login do KDE.

Um ponto relevante observado durante esse processo foi que o XBPS não instala automaticamente todos os componentes gráficos necessários. Elementos como o Xorg ou o Wayland precisam ser instalados manualmente, o que evidencia a natureza mais explícita do sistema. Esse tipo de comportamento exige maior familiaridade com o funcionamento interno do Linux.

Para quem prefere evitar esse processo inicial, existe a versão com XFCE pré-instalado. Ainda assim, o instalador continua sendo em modo texto, e o sistema resultante é bastante enxuto. A instalação inclui apenas os componentes básicos da interface e o navegador Firefox, sem loja de aplicativos ou ferramentas gráficas para gerenciamento de pacotes.

Utilizando o XBPS no dia a dia

O XBPS é simples na forma como organiza seus comandos. Para atualizar o sistema, utiliza-se xbps-install -Syu, desde que o próprio XBPS esteja atualizado. Caso contrário, o sistema informa a necessidade de executar xbps-install -u xbps antes.

A instalação de pacotes é feita com xbps-install nome-do-pacote, podendo incluir a opção -S para atualizar os repositórios simultaneamente. A remoção de pacotes é realizada com xbps-remove nome-do-pacote, e o uso do parâmetro -R remove também as dependências não utilizadas. Para buscar pacotes, o comando xbps-query -Rs termo retorna resultados relevantes.

Durante nossos testes com a versão MUSL, houve um caso de dependências não satisfeitas ao tentar instalar o GIMP. A solução envolveu atualizar o sistema e alterar o mirror dos repositórios utilizando a ferramenta xmirror. Após a atualização completa e reinicialização, a instalação ocorreu normalmente. Esse tipo de situação ilustra tanto a flexibilidade quanto as possíveis dificuldades associadas ao uso da MUSL.

Compilação e isolamento com xbps-src

Além da instalação de pacotes binários, o Void oferece suporte à compilação de software por meio do xbps-src. Um diferencial importante é o uso de ambientes isolados via chroot durante o processo de build.

Esse isolamento evita que dependências de compilação interfiram no sistema principal, mantendo o ambiente mais limpo e previsível. O conceito é semelhante ao utilizado por ferramentas modernas de containerização, como o Docker, embora aplicado de forma diferente.

Comunidade, cultura e governança

O Void Linux possui uma comunidade menor em comparação com outras distribuições populares. Isso impacta diretamente a quantidade de documentação disponível e a facilidade de encontrar soluções prontas para problemas específicos. Embora o Void Handbook seja útil, ele não possui o mesmo nível de detalhamento da documentação do Arch Linux.

Existe também um perfil recorrente de usuários que migram para o Void em busca de uma experiência mais enxuta e menos popular. Isso pode influenciar a cultura da comunidade, que tende a ser mais técnica e, em alguns casos, menos receptiva para iniciantes.

O projeto passou por uma mudança significativa em 2020, quando seu criador original deixou a equipe após divergências internas. Apesar disso, o desenvolvimento continuou sob a responsabilidade de outros mantenedores, e o sistema permanece ativo, recebendo atualizações regulares.

Vale a pena usar?

A decisão de utilizar o Void Linux depende diretamente do perfil do usuário. Para quem não se interessa por diferenças entre init systems, bibliotecas C ou gerenciadores de pacotes, o sistema provavelmente não oferece vantagens relevantes em relação a alternativas mais populares.

Por outro lado, usuários com interesse técnico, que valorizam controle e entendem o funcionamento interno do sistema, podem encontrar no Void uma plataforma interessante. Ele também pode ser uma opção viável para máquinas mais antigas, especialmente devido à sua leveza e suporte à arquitetura 32 bits.

No cenário atual, onde o Linux caminha em direção a soluções mais automatizadas, com maior uso de containers e sistemas imutáveis, o Void segue uma abordagem mais tradicional. Isso não o torna obsoleto, mas o posiciona como uma alternativa específica, voltada para um público que prefere um nível maior de controle sobre o sistema.

No fim, o Void Linux não tenta ser para todos. Ele funciona bem dentro do seu próprio contexto, atendendo a um grupo específico de usuários que sabe exatamente o que está procurando.

Talvez o Void Linux leve a liberdade de escolha pelo usuário um pouco mais a sério do que você gostaria. Uma alternativa um mais reduzida e simplificada, mas que ainda entrega muitas escolhas ao usuário, é instalar o Arch Linux utilizando o Archinstall.